EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

sobre a carne...

Eu sou um perfil. Uma pintura. Uma louca entorpecida pelo ópio do teu corpo.
Eu sou uma música: uma valsa, talvez. Sou a nota grave de uma sinfonia esquecida.
Sou a palavra materializada em tua boca, o pecado marcado em tua carne.
Sou o sexo pulsante e faminto. Sou o gozo. Sou a boca que te mastiga e engole.
Sou o mármore do teu corpo, tua lápide, tua última morada.
Sou a morte, a tua "pequena morte".
Morra em mim, enigmático gigante!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

diário de salomé: o estrangeiro...

Odalisque by Jules Joseph Lefebvre


Nas noites em que o bordel transbordava de lascívia por todos os cantos, era tomada por uma brandura inexplicável. De modo extraordinário, a movimentação das outras prostitutas fazia com que esquecesse minha própria posição de meretriz. Sentia-me uma outra pessoa, uma observadora distante, um espectador diante do grande palco. Então sentia-me mais limpa, menos ordinária. Não negarei que sentia um certo prazer naquela vida: foi aquele mundo que me acolheu ainda menina. Não conhecia outro além daquele e da minha infância maculada pela sujeira de meu pai.

Nesses dias de intenso movimento, arrumava-me de modo calmo e minucioso, pois havia de esperar os clientes mais importantes. Dificilmente havia alguém diferente dos clientes habituais - os mais abastados eram meus (e não eu deles, como poderia qualquer um imaginar). O coronel comparecia pontualmente e sempre trazendo mimos nada sutis. Havia anos que se servia de meus préstimos, mas a idade o aplacara de modo cruel. Havia também os políticos, os figurões de cidades vizinhas. Os viajantes, esses eu deixava para as outras meninas, já que não poderiam pagar meu preço.

Lembro-me de um estrangeiro, que em suas calças surradas e botas sujas irrompeu o salão, em meio à névoa de fumo e luxúria. Particularmente belo, tinha cabelos longos e olhos de mistério. Dirigiu-se ao bar e perguntou por mim, enrolando a língua para pronunciar meu nome. Os que estavam ao redor dirigiram o olhar em minha direção, dando ao estrangeiro a resposta à sua pergunta. Observou-me por alguns instantes, com um sorriso no canto da boca e tragou o cigarro que tinha entre os dedos. Confesso ter ficado perturbada, e no primeiro instante, o considerei insolente por imaginar que pudesse me possuir. Não me deitava com viajantes, afinal, era a puta sublime, tinha de joelhos diante de mim os homens mais importantes e ricos. Gostava da sensação de poder, gostava de me sentir desejada e endeusada pelos homens, gostava de ver a disputa entre eles para se deitarem comigo. Gostava de ser paga. Se quisessem estar entre meus lençóis, deveriam pagar. O que me fazia tão cara era justamente o rosto ainda de menina, a candura dos traços, aliados ao olhar felino de mulher, ao jeito de animal, ao ar de mistério. Era uma deusa na alcova.

O estrangeiro dirigiu-se a mim e ergueu a mão. Entreguei-lhe a minha, e ele então a beijou. Havia nele um quê de mistério, algo irônico. Com um suave balançar de cabeça, fiz um sinal negativo, para que entendesse que não poderia me possuir. E com o mesmo sorriso no canto dos lábios, abriu a bolsa e mostrou-me a maior importância em dinheiro que jamais havia sonhado. Não imaginava que meios o estrangeiro havia utilizado para ter em poder tal soma, e pouco me importava. Era o meu ofício.

Subimos ao aposento de cetim vermelho - meu aposento - e o estrangeiro repousou a bolsa em uma grande poltrona no canto do quarto. Sem dizer uma palavra, despiu-se e, sem dar importância a minha presença, foi banhar-se. Não sabia o que meu cliente desejaria, e senti que talvez tivéssemos algumas dificuldades de comunicação verbal: precisaria lançar mão da linguagem do corpo, da linguagem universal que todos compreendem.

Espiei o estrangeiro imerso em minha banheira, de olhos fechados, como se há muito estivesse esperando por aquele momento. Preparei uma bebida e aproximei-me lentamente da banheira. Seus olhos se abriram e o sorriso despontou novamente em seu rosto: não era um sorriso escancarado: era pequeno, angular, quase secreto. Pegou o copo de minhas mãos, e seus dedos acariciaram levemente os meus. Era diferente. Diferente e perturbador. Voltei para junto da cama, aguardando.

O homem saiu da banheira, enorme, forte, nu, enxugando os cabelos compridos com uma pequena toalha e caminhando ainda molhado em minha direção. Tremi inteira. Ao chegar perto, inclinou-se e beijou minha testa, virando-se em direção à cama. Deitou-se e me fitou por instantes intermináveis. Nada disse. Alisou o lençol de cetim vermelho, convidando-me a juntar a ele. Deitei e me movi para perto, tentando desfazer a timidez que muitas vezes antecede o sexo pago. Mas ele me deteve: não deixou que o tocasse daquele jeito. Virou-se para mim e desamarrou o roupão de seda que eu usava - enquanto ele se banhava, despi-me e vesti o roupão, apenas. Sorriu e passou a mão pelo meu corpo, dos seios ao sexo, e deteve-se. Encarou-me nos olhos e passou a afagar meus cabelos, sem pressa. E, por incrível que possa parecer, adormeceu. Senti-me rechaçada. Homem algum havia conseguido passar alguns momentos ao meu lado sem desejar me tomar para si. Entre pensamentos sobre rejeição e indignação, também adormeci.

No meio da noite, fui despertada por um breve movimento na cama. O estrangeiro me fitava e se tocava lentamente, como que para não me acordar. De certa forma aquilo me excitou. A profissão havia me colocado numa posição em que raramente conseguia extrair algum prazer sexual, mas o estrangeiro provocou-me essa erupção, esse calor, esse desejo de me sentir possuída por ele. O sexo era tão perfeitamente desenhado que fez o meu vibrar. Ele não me deixou tocá-lo. Seu prazer residia em me excitar, em me fazer molhar e desejar ser tomada por ele. O homem mordia o lábio, enquanto sua mão fazia movimentos lentos para cima e para baixo, revelando uma pequena gota de excitação na extremidade de seu sexo. Observei-o por momentos que pareciam não ter fim, e sem me conter, deixei minha mão deslizar para o meio de minhas pernas. Minha carne queimava e contraía ao toque dos dedos. Sem parar de friccionar o pênis, dirigiu-se ao meio de minhas coxas e me contemplou com sua língua quente e faminta. Afastou minha mão para que pudesse abocanhar minha carne lisa e quente. Ele se tocava cada vez mais forte e quase mastigava meu sexo. De repente, parou. Colocou-se de joelhos na cama e me olhou, sério. Segurou-me pelos cabelos e me pôs de quatro à sua frente, rosto colado em seus pêlos, esfregando meu rosto no nervo tenso e excitado. Minha boca o buscou, envolvendo, à princípio, a porção mais protuberante e lisa do falo, enquanto a língua fazia movimentos circulares para extrair mais uma porção líquida de excitação. Logo estava inteiro em mim, tocando minha garganta. Minha pele marmórea se empinava a cada golpe em minha boca. Meu sexo se derretia inteiro, umedecendo a virilha, o início das coxas. Afastou-se e, puxando-me pelos cabelos, fez com que levantasse até sua boca. Era a primeira vez que sentia vontade de beijar alguém que estivesse pagando pelos meus préstimos sexuais. Pude sentir o meu gosto na língua macia e quente. Sentia que ia explodir. Precisava ser dominada por inteiro. Precisava da força dele dentro de mim.
Sem desgrudarmos as bocas, deitamo-nos. Ele, por cima de mim, guiou o pênis até a entrada de meu sexo e o esfregou ali, melando-se em mim, fazendo deslizar ao redor do meu clitóris. Poucas vezes - até então - havia sentido prazer daquela forma. Assim que entrou, investiu forte contra meu ventre, de modo lento, ritmico. Pude senti-lo inteiro na carne, preenchendo todo o espaço que tinha por dentro, com uma mão por baixo do meu corpo, apertando minhas nádegas, e a outra afagando meus cabelos, romântico, como se eu fosse seu amor. E o gesto arrebatou-me tão abruptamente que caí em prantos, soluçando descontroladamente. Sentia, no fundo, uma necessidade de amor que não encontraria naquele lugar, naquela cama, naquela condição. Eu era paga para amá-los, para fornecer satisfação do amor sexual que não tinham em suas casas, com suas recatadas esposas. E nisso, eu os satisfazia plenamente, a ponto de que disputassem minhas noites com lances caríssimos, como num leilão.

O estrangeiro continuou em mim, beijando-me ternamente os lábios, o rosto, os olhos. Não há nada mais terno do que o beijo nos olhos - disseram-me certa vez. E a ternura foi aplacando meus soluços, acalmando-me e inflamando a carne novamente. Apertei-o entre as pernas e ele parou por um instante, fechando os olhos e soltando um gemido de prazer. Passou a mover-se ainda mais lentamente, parando, vez ou outra, para que eu o apertasse por dentro. Ele latejava dentro de mim, desesperado, mas sem perder a brandura dos movimentos. Abriu os olhos e aproximou-se de minha boca, encostando levemente os lábios nos meus, intensificando as investidas, firme, fundo e lento. Eu me empinava para junto dele, para senti-lo em todo corpo, para que estivesse mais fundo que qualquer outro homem. E nossos sexos tomaram vida própria, quase desprendendo-se de nossos corpos, serpenteando até a proximidade do orgasmo. Disse palavras em sua língua e me arrebatou com uma intensidade tão grande que posso dizer que morri em seus braços.

E o estrangeiro partiu em silêncio, levando um pouco de mim consigo, mas não antes de desenhar um pequeno coração em meu ventre com o batom vermelho que repousava sobre a penteadeira.

Na cama, o pagamento pelo amor de uma noite e os despojos de nossa "petit-mort".

domingo, 7 de dezembro de 2008

sobre o inferno...

Sabia que ali era o inferno. Avistei o demônio - não o do outro, mas o meu próprio. Ele sorriu e estendeu-me a mão. Achei-o terno. Fechei os olhos e deixei que me conduzisse.
Agora, afogada em lava, tento achar o caminho de volta à superfície.

sábado, 6 de dezembro de 2008

desvario...

Quando minh'alma afastou-se de mim, tu vieste. Vi meu reflexo do outro lado, de onde a extravagância parecia mais atraente. Deixei-me seduzir pelo ato de loucura, pelo instante de perturbação, pelo medo. E o escuro causou-me um deleite orgástico, e pude sentir o quanto me satisfazia estar imersa em ti.
Quando minh'alma afastou-se de mim, tu vieste, ó, sombra!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

sempre...

Havia uma acidez insistente na saudade.
Havia todo o tempo
que não se mede
em apenas algumas palavras.
Havia o silêncio e a surdez.
Havia o abandono e o esquecimento.
Havia o amor e a mágoa.
Havia também a dúvida constante.
Há um espaço certo e pronto,
um corredor com várias portas.
Há a dúvida.
Há o medo.
Há a palavra e a ausência dela.
Há a posse, o ódio, o sal.
Há o mar.
Há a inconstância das marés
e a leveza da alma.
Há o grito mudo.
Há o fogo.
Há a morte.
Há noites insones e vigília.
Há o gozo.
Há o vazio e a punição.
Há a memória e o recomeço.
Sempre.

domingo, 30 de novembro de 2008

Confissões de Molie


A noite girava ao meu redor; minha embriaguez não era alcoólica, era muito mais profunda e densa. Queria encontrar alguém que aplacasse aquele misto de fogo e dor, o desejo de ser possuída, machucada, amada - mesmo que por breves momentos.

Caminhei pelos becos escuros e mais imundos que encontrei pela madrugada. Minha experiência dizia, intimamente, que encontraria ali algo diferente de tudo o que havia experimentado. Tive homens, mulheres, casais; fui possuída em lugares inusitados e sob efeito de entorpecentes. Tive amantes de todas as etnias e crenças. Mas nunca - nunca - estive tão à margem do submundo como naquela noite.

O avançar da hora e a neblina densa que pairava pelos cantos escuros da cidade faziam meu pulso acelerar, uma onda de excitação inexplicável tomar o corpo todo. Estava úmida com a possibilidade do novo. Andava como um animal selvagem a farejar sua caça.

Passei por casais que se engoliam escondidos pela noite, gemendo, arfando, aproveitando o disfarce da escuridão para satisfazer suas fantasias. A visão da luxúria alheia excitava-me ainda mais, a ponto de sentir quase dor. Minhas mãos tremiam e excitei-me a ponto de quase parar e me masturbar ante a visão da mulher que engolia o jovem marinheiro fardado e visivelmente bêbado. Mas segui.

Imersa em pensamentos mais imundos que aquela ruela escondida e deserta, abri a pequena bolsa a procura do cigarro. Caminhando a passos rápidos, uma porta abriu-se e dela saiu um gigante de costas, carregando um violino e vestindo uma capa para abrigar-se da fina garoa gelada que caía sobre a noite. Ele deixava o ruidoso bar pela porta dos fundos. O homem encontrou-me e quase lançou-me ao chão. Desequilibrei-me sobre o salto, deixando a bolsa cair. Ele virou-se para mim, desculpando-se e, ao mesmo tempo, xingando. Abaixamos ao mesmo tempo para apanhar a bolsa.

De frente para ele, vi que encarava o decote da blusa e o volume dos seios. E quando nos levantamos pude ver seus olhos: verdes tão escuros que quase eram cinzas. Se já estava úmida com meus próprios pensamentos, o estranho acabara de me inundar. Só de olhá-lo, soube que era o que eu procurava. Era a minha presa.

Ele me devolveu a bolsa e sorri, agradecendo. Ofereci-me para segurar seu violino para que terminasse de vestir a capa. A chuva começara a apertar, e então caminhamos mais um pouco, em busca de algum toldo que nos servisse de abrigo. Ele perguntou o que eu fazia andando sozinha por ali àquela hora e, sem pensar, respondi que procurava por ele. Os olhos verdes me encararam com um sorriso malicioso e perplexo. Encostei-me à parede e, encarando o violinista, pus seu instrumento entre minhas pernas, por baixo da saia, simulando masturbação. Imediatamente, ele levou a mão à calça e apertou o volume que ali se formava, visivelmente excitado.

"Louca", balbuciou ele, incrédulo.

Deixando o violino de lado no chão molhado, levantei mais a saia e tirei lentamente a calcinha, sem parar de fitá-lo. Ele pegou a peça e a cheirou, como um bicho. Inspirando profundamente o odor do meu sexo excitado e úmido, soltou um pequeno grunhido. Abriu a calça e, de olhos fechados, esfregou minha calcinha em seu pênis já ereto, excitado, melado. O casal que se divertia há alguns metros já havia terminado e passava agora por nós, rindo. Mas nada nos deteve.

Senti o corpo grande me esmagando contra a parede, a mão forte buscando a entrada da minha vulva. Senti então o hálito morno dele contra o meu rosto, cheirando levemente à bebida e hortelã. E quando os dedos alcançaram minha pele quente e molhada, ele rosnou. Os olhos tornaram-se quase negros de excitação. Os lábios encostavam levemente em minha boca, e quando eu tentava beijá-lo, louca, ele sorria no canto da boca e desviava em direção aos meus ouvidos, sussurrando "cadela... cadela..."

Senti desejo e raiva vindos dele, uma mistura louca e explosiva que excitava até minha alma, como nunca antes. Como um cão, enfiou a língua em minhas orelhas e lambeu meu rosto, pescoço, minha boca. Beijou-me; beijou-me tão desesperadamente que pensei me afogar em língua e saliva, uma língua deliciosamente macia e densa, firme e macia. Havia, então, três dedos dentro de mim.

Seu pênis encostava em minha barriga, tenso e latejante. Enquanto eu quase morria de excitação, ele abriu minha blusa com a voracidade de uma besta, arrebentando todos os botões, que saltavam contra os paralelepípedos, tilintando, como o único som da noite, além de nossas respirações e do abafado som que vinha de dentro do bar.

Minhas unhas correram por dentro da capa e da blusa grossa, encontrando peito e barriga peludos, e arranhando toda a pele até alcançar a carne. Ele apertou os dentes e segurou forte meu queixo, obrigando-me a encará-lo:

"Gosta de força?"

Sorri. Senti um tapa acertar meu rosto e os dentes nos meus lábios. Minha pernas tremiam de medo e desejo. O rosto dele havia mudado. Beijou-me novamente e os dedos tocavam meu útero, de tão forte e fundo que vinham em mim. Enroscou a mão em meus cabelos e me fez abaixar e engolir seu pênis. Pude senti-lo em minha garganta, tão rijo e pulsante que fazia meu sexo contrair involuntariamente, quase em orgasmo. Mas logo levantou-me - também pelos cabelos - e me colocou de costas para ele, encostada na parede suja que fedia a urina dos passantes. Afastou-se um bocado e levantou minha saia de modo a ver minhas nádegas brancas e redondas, onde ficou parado, alisando-as com uma das mãos e masturbando-se com outra. Sentia uma lágrima correr quente pelo meu rosto. Sentia-me feliz e assustada. Sentia-me quase violada e sentia prazer naquilo. Era um monstro.

"Por favor..."

Senti novamente a mão forte me acertar, dessa vez na nádega. E logo ele me prensava novamente contra a parede, encostado em minhas costas. Seu pênis roçava entre minhas coxas, sem me penetrar. Eu queria mais, precisava de tudo, precisava dele. Logo percebi sua intenção: molhou-se na excitação de minha vulva e recuou um pouco, buscando penetrar-me por trás. As pernas falharam e quase sucumbi, mas os braços fortes me mantiveram de pé. O sexo incrivelmente teso me invadiu por trás e gritei. A dor quase me fez desfalecer. Soluçava sem forças, sendo currada como uma cadela por um outro animal, maior, mais forte. Mas ao mesmo tempo em que a dor era intensamente insuportável, o desejo crescia. Senti uma mão me segurando pelo quadril e outra vindo pela frente, me tocando o sexo, me masturbando e penetrando por onde eu mais gostava, enquanto ele me sodomizava. Logo a dor tomou uma proporção inexplicavelmente excitante, fazendo-me adorar senti-la.

"Puta... vadia... cadela...", ele gritava com uma ferocidade ameaçadora, e logo a porta do bar abriu-se novamente, de onde saíram dois ou três homens, falando alto e embriagados. Passaram por nós falando imundícies e gargalhando. Não podia ver claramente por conta da posição em que me encontrava, mas pude perceber que um deles parara um pouco à frente para observar-nos. Talvez estivesse se masturbando. Talvez tivesse se excitado com nossos gemidos e os gritos do meu amante. Talvez estivesse apenas observando.

Meu homem arfava e me mordia na nuca como se quisesse mastigar meu corpo. Ele me comia inteira: por trás, com o sexo; pela frente, com os dedos; pelo resto do corpo, com os dentes. Foi a primeira vez que realmente me senti inteira e de alguém, por mais estranho que pudesse parecer: era apenas um desconhecido.

O centro do meu corpo começou, então, a ondular-se, espasmodicamente: o gozo vinha coleante, vibrante, intenso como jamais fora. Comecei novamente a soluçar, sem forças. Mas o estranho continuou a me segurar, forte como um gigante. Minhas coxas estavam inundadas de mim, de meu gozo.

Senti o pênis aumentado de volume dentro de meu corpo, latejando e anunciando o jato quente que me preencheria.

Quase que por impulso, afastou-se de mim e continuou friccionando o pênis com a mão enorme, segurando sua base com força para conter o gozo e mandou:

"Ajoelha"

E eu, obediente, pus-me de joelhos à sua frente e recebi no rosto, cabelos, seios, um jato forte e espesso, quente, deliciosamente quente. E o grito do homem ecoou por toda a viela, quebrando o silêncio da noite fria. E quando pensei que nos vestiríamos e seguiríamos cada qual seu caminho de volta para casa, ele me suspendeu novamente e colocou minhas pernas ao redor de sua cintura, encaixando o pênis ainda parcialmente duro em meu sexo. Pude senti-lo crescer novamente dentro de mim, dessa vez em minha vagina, e pelos momentos que se seguiram, gozei e apanhei como uma puta barata, sendo espetáculo dos marginais, bêbados e indigentes que eventualmente passavam pelo beco escuro e fétido.

Estava apaixonada, perdidamente apaixonada pelo estranho que havia me currado.

domingo, 9 de novembro de 2008

sobre a primeira pessoa e o suicído amoroso...


A primeira pessoa é o ápice do egocentrismo: eu.
Quando escrevo em primeira pessoa, sinto uma importância egoísta que pode não existir para os outros. Mas eles - as terceiras pessoas - não querem saber de mim. Eles querem saber deles, querem olhar-se no espelho, querem ser Narciso. Mas não tu, amor. Tua segunda pessoa cobriu a primeira de flores e jardins invisíveis, de sons que fizeram eu bailar contigo. Criaste, então, outra primeira pessoa, maior, mais densa, mais valsante: nós.
Nós somos feitos de terremotos e ventania, de água salgada vertida dos espelhos dos olhos; somos o puro e devasso amor. Somos a raiva e a ternura, o pecado e a remissão. Porque eu, assim como tu, estou entranhada em mim, em ti, em todos. Somos iguais, porém diversos. Somos a semelhança entre o nascimento e a morte; somos o suicídio perfeito da alma: somos o recomeço a cada dia.
Então meu eu, menos egoísta e mais coleante, rende-se à morte. Quero morrer em teus braços, segunda-pessoa-única. Beije-me e feche meus olhos. Mata-me de amor.
Amo como uma suicida - pois todo amor leva à loucura, e a loucura, à morte. Amo em primeira pessoa a primeira pessoa, e tu - segunda pessoa - é o pouco da minha porção altruísta, é o que me leva a dar o que, inconscientemente, eu levaria para o túmulo.

sábado, 8 de novembro de 2008

sobre o esquecimento...


"Como é breve o amor e longo o esquecimento."
[Pablo Neruda]

O coração batia descompassado a espera de um sinal. Olhava a porta que não se abriria novamente, com uma esperança infantil de quem aguarda que o final sempre mude e se torne feliz. Ali, no silêncio da sala, percebeu como o apartamento parecia, de repente, imenso. A janela aberta que revelava um azul escuro salpicado de pequenos pontos prateados mais se assemelhava a uma pintura: contemplava-a de longe, acreditando que aquele céu era fictício, irreal, imaginário.
Acendeu o último cigarro do maço e percebeu as mãos trêmulas. Olhou o relógio. Sentiu uma pequena pontada no peito, uma dor desagradável, e uma ardência na garganta. Era o choro que insistia em estrangulá-la e sacudir o corpo em soluços incontidos.
O ponteiro menor já havia dado três voltas completas em torno do relógio, avisando que ele não voltaria. A porta não se abriria mais. A realidade atingiu seu peito como um raio, forte e fulminante. A sala nunca fora tão vazia e tão silenciosa.
Colocou-se de pé e caminhou em direção ao banheiro, trôpega, enquanto a tristeza dava lugar à raiva. A raiva era de si mesma, por esperar tanto dos outros e tão pouco de si. Com o punho cerrado e o rosto lavado das lágrimas que vertera, estilhaçou o espelho ao longo do corredor. Gritou. Gritou para dentro, sentindo o peito implodir. Com as costas contra a parede, escorregou até o chão, onde acalentou no colo os restos de coração que pendiam do peito aberto.
Estava morta.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

sobre o cansaço...



Às vezes eu me canso. Simplesmente canso.
Canso dos ideais, da política, do conhecimento, das palavras, da calmaria, da turbulência, da paz, da falta, do excesso, da guerra, do cotidiano, da amargura, do domínio, dos sorrisos forçados. Eu me canso dos protocolos.
Por isso carrego apenas minhas convicções numa trouxa de retalhos e sigo o rumo do mundo, andando por vezes à margem, por vezes ao centro da estrada que leva ao meu lugar.


sobre a escrita...

Quando perguntaram-me o que eu escrevia, respondi:
- Nada. Palavras apenas. Um bocado de fonemas que fazem sentido só para mim, talvez. Deixo a poesia para os poetas e os músicos, pois deles há de se ler e ouvir algo muito mais harmonioso do que esse monte de tolices sem forma que cá deposito.

sábado, 18 de outubro de 2008

sentidos...



Quartos escuros, mesas vazias, tristes monólogos. Sorrisos mecânicos e humores ácidos. Os cinzeiros sujos e as meias garrafas de uísque denunciam a solidão daqueles que observam, destacados da grande multidão.


Comentários lacônicos balbuciados entre dentes mal são ouvidos. E os olhos julgam o desconhecido, pela necessidade racional da classificação do mistério: não contentam-se em apenas ver. Talvez
essa falta de tato justifique a falta de tato em relação ao mundo. A idéia que se compreende aquilo que se vê é falha, até mesmo estúpida. Olhos são como gatos, traiçoeiros, capazes de ludibriar seu próprio dono, ou quem quer que ouse desvendá-los. Eles mesmos possuem seus próprios mistérios, alguns irreveláveis. Mas tratam de desvelar os véus alheios, com a tola pretensão de poder entender, conhecer, julgar.

Com os olhos eu vejo; com todo o resto, enxergo. E é quando fecho os olhos que consigo realmente sentir o mundo ao redor. Só enxergo além do óbvio quando estou absorta na cegueira, quando a claridade dá espaço às trevas, quando a alma voa.

Quando estou cega sou toda sentidos.



domingo, 12 de outubro de 2008

sobre o lugar certo...


Há todo o tipo de pessoas inconvenientes: há os que o são sem saber, há os que sabem e não ligam e ainda há aqueles que forçam a barra e tornam-se ridículos. Mas nada pior (ou mais ridículo) do que uma mulher inconveniente. Um homem inconveniente é algo constrangedor, mas uma mulher inconveniente consegue superar os mais altos níveis de embaraço imagináveis.
Mendigar atenção ou não saber onde se colocar é algo um tanto infantil, pequeno, diria até "amador." Para certos jogos, não há regras. Aliás, regras foram feitas para serem quebradas, não é verdade? Mas até para a transgressão é necessário haver honra, etiqueta, e, vamos lá, um pouco de charme.
Posso dizer que sou, por assim dizer, "a good gambler" (espero não precisar traduzir). Apostei todas as fichas na primeira rodada, onde minhas chances eram mínimas. Mas joguei no lugar certo, apostei a vida no que eu mais desejava. E os deuses, em conluio com meus próprios desejos e anseios, concederam-me a sorte grande.
Sou rica. E não ofereço migalhas de minha mesa por achar que ninguém merece migalhas. Mas por todo canto há pobres de espírito que contentam-se com raspas e restos, mendigando o que não podem (mais) ter.
Percebe-se, então, que o grande problema é não saber o seu próprio lugar.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

sobre pactos de entrega...


pleasure and pain por clern.
"sometimes I'm tempted, sometimes I am
I would be lying if I said I didn't miss that giant man
oh he was a line between pleasure and pain
but me and the feet have some years to reclaim"

Hoje há mais cores no mundo. Há outros sabores, outros desejos (que só podem ser compartilhados com uma única pessoa). E "quando desejos outros falam", o que se pode fazer é fechar os olhos e saltar, entregando o corpo inteiro, deixando que ele vá em queda livre, absolutamente entregue ao vento.
E o vento sopra forte contra o meu corpo, balançando-me com uma intensidade variável, de violenta a doce, de leve a profunda. E a voz que sibila em meus ouvidos é suave e grave, e me enche de sensações extremas. As palavras soam como pequenos fragmentos de felicidade que tomam forma e são registradas pela oralidade desses momentos íntimos, onde sangue, gozo e saliva são doces manifestações de nós mesmos. E a queda não tem fim, o abismo não tem fundo, o amor não tem limites ou cercas. Convenções, protocolos, tabus, medos, ficaram todos para trás, antes de nós chegarmos. Agora há a entrega e os momentos vividos. Há os momentos a viver. Há momentos doces e também os amargos. Há a dor e o prazer, o flagelo e o orgasmo, o meio e o fim. Há você e eu. E há os pactos de fidelidade, de sangue, de entrega: há os pactos de amor.
E além de tudo, há a saudade e a presença. Mas é essa saudade que reforça os pactos e as palavras.
Minha alma está em êxtase.


sábado, 27 de setembro de 2008

interesting quotes...

"I like hearing myself talk. It is one of my greatest pleasures. I often have long conversations all by myself. Sometimes I am so clever I don't understand a single word of what I am saying."


"I don't regret for a single moment having lived for pleasure. I did it to the full, as one should do everything that one does. There was no pleasure I did not experience. I threw the pearl of my soul into a cup of wine. I went down the primrose path to the sound of flutes. I lived on honeycomb. But to have continued the same life would have been wrong because it would have been limiting. I had to pass on. The other half of the garden had its secrets for me also."

[Oscar Wilde]

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

opium cum dignitatem...

Olharam-se e rosnaram baixo para o outro, reconhecendo-se. Onde quer que estivessem, se o corpo pedisse, buscavam refúgio no escuro ou vazio de um cômodo qualquer. Ela entreabia a boca e sorria maliciosamente, um sorriso que era o sinal que ele precisava para que a conduzisse pelo braço para que se satisfizessem, despindo-se da fantasia social convencional. E quando livravam-se de suas máscaras, os demônios que escondiam tomavam seus corpos e o desejo e a sujeira vinham à tona.

Eram diferentes, doentes aos olhos dos outros. Ele levava no corpo marcas do desejo compartilhado, assim como ela. As cicatrizes pelos braços e nuca a deixavam ainda mais atraente, pois traziam recordações de momentos entorpecentes como ópio, onde esqueciam a dor e entregavam-se aos jogos íntimos que lhes causavam euforia incomum...

Ele a torturava, adoravelmente sádico, com uma sensibilidade jamais vista. Emocionava-se a cada corte, enquanto sua pequena masoquista - presa por pesadas amarras - implorava para que ele a deixasse provar da droga que brotava naturalmente de sua pele branca e fria. Os grandes olhos castanhos enchiam-se de emoção, e o peito alvo saltava ao ritmo acelerado da respiração. Ela chorava e gargalhava, descontrolada de desejo, enquanto ele a torturava, nu e excitado, com mais cortes pelos próprios braços. O sexo teso latejava aos olhos da companheira, sem que ela pudesse tocá-lo. E babava, rijo e inchado, louco para invadir a carne vermelha e quente que ela guardava no meio daquelas coxas brancas como nuvens.

Ela desejava ser currada, sentir as estocadas fortes e profundas, como se ele pudesse rasgá-la ao meio. Achavam realmente que o sangue do outro amenizava as dores, intensificando o prazer. Eram insanos, únicos, viciados. E o vício era o outro; o ópio era o sangue, a dor e o prazer.

E quando ele se aproximava, misericordioso, oferecendo-lhe os cortes para seu deleite, ela o aceitava prontamente, como uma cadela a lamber as feridas de seu dono. Beijavam-se, alucinados, enquanto ele esfregava sangue de seu braço em seu sexo para que ela o tragasse inteiro, divino, perfeito.

A boca carnuda o engolia e a língua quente o lambia ferozmente. E quando sentia todas as veias do corpo dilatadas e pulsando descontroladamente, soltava sua fêmea e a fodia como um bárbaro, deliciando-se com todos os gritos e gemidos e lágrimas e risos que vinham de sua cadela insana, entorpecida pelo desejo da carne e pelo ópio do sangue.

O coito seguia, violento, amoroso, incomparável. O prazer vinha em ondas quentes que tomavam o ventre cada vez mais forte, anunciando a plenitude do ato: era o gozo, o mar quente de espuma branca que inundava a vagina, a paz que buscavam depois da tormenta, o sossego do amor natural.

E depois que os corpos repousavam, voltavam ao mundo comum, de pessoas comuns, onde escreviam e registravam sua história, onde os normais indagavam:
- Ficção?



sábado, 13 de setembro de 2008

sobre o título...


Mudei o nome do blog. Ao menos um pouco. Porque mudar é bom. E eu mudo a todo instante, como chama que acende e apaga e volta a acender por conta do vento que sopra a pequena fagulha e faz queimar a mata.

E mudo porque sou faiscante, caleidoscópica, quente, fria, morna, pelando, bicho, mulher, menina, mobília, sol, nuvem, chuva, fogo, amor, sexo. Sou muitas e sou nenhuma. Estou aqui e lá longe, onde minha imaginação permitir que esteja.
Sou subjetiva. Volátil. Evaporável. Sem rótulos, pois não se pode ser tudo ao mesmo tempo.
Acabo de quebrar um paradigma.

Verbum caro factum est...
"A palavra se fez carne", tomou forma em mim... E o contrário: tudo o que sinto torna-se verbo, materializa-se em signos e fonemas... O meu corpo fala, minha alma canta...

E se você conseguir dividir o mistério com todas nós (Andressa, Nina, Marie, Genevieve, Juliette...), terá um harém ad aeternum...


quarta-feira, 10 de setembro de 2008

sobre a paisagem da janela...


Havia nuvens. Elas vinham por trás das colinas e espalhavam-se, sorrateiras, abraçando os morros verdes e mergulhando vertiginosamente em direção ao solo, como se fossem realmente tocá-lo. E elas vinham tão precisas que quase pude aspirá-las, que quase pude tocá-las com as pontas dos dedos.

O tempo parou do lado de fora da janela: aquela paisagem manteve-se estanque para ilustrar o sonho que eu sonhava acordada. Era o pano de fundo para a minha loucura.
E foi ali que entendi o quão doce pode ser a subjetividade do homem...


segunda-feira, 1 de setembro de 2008

sobre Salomé e o jovem cliente...

Passion - Antoine de Villiers - http://www.antoineart.com/nudes/love/pages/03_passion.htm

Ele era apenas um menino. Ela, uma mulher.
E tudo corria de acordo com sua vontade, mesmo que dissesse o contrário, mesmo que estivesse pagando pelos préstimos sexuais da misteriosa Salomé. Ela conduzia a dança, o beijo, a foda. Ela. Era a verdade avessa às convenções. E nem sempre ele podia compreender quantas ela era, quantas outras havia dentro dela. Sabiam-se apenas amantes, sem necessidade de compreensão absoluta do outro. Sabiam-se responsáveis pelas noites perturbadas e loucuras divididas. Sentiam-se atraídos pelo silêncio que selava sua cumplicidade, pelo mistério que rondava o amor sexual.
E quando a noite tornava-se taciturna, deixavam fluir as bestas que os acompanhavam, os demônios que os perturbavam e excitavam. E a puta subia no colo do rapaz, engolindo o sexo com a boca que tinha entre as pernas.
Ele apenas revirava os olhos, em êxtase. Os lábios balbuciavam desejos irreveláveis enquanto Salomé subia e descia, molhando as coxas e a virilha do amante.
Depois da explosão gozo, o jovem cliente partia carregando na pele o doce perfume de Salomé, levando na memória - com um sorriso no canto da boca - os sussurros da puta, sonhando com os mistérios que não pretendia desvelar.

domingo, 31 de agosto de 2008

Milan Kundera...

  • "Ele deixa tão claro como o dia o que é, sem nominá-la... porque existem sentimentos demais pra poucas definições e palavras... e eles são tão generalizados... e a Litost, nada mais era (antes desse livro) um sentimento tão obscuro, que apesar de estar ali não notava sua existência!"
- O Livro do Riso e do Esquecimento
  • "Não quero dizer com isso que havia deixado de amá-la, que a esquecera, que sua imagem desbotara; ao contrário; ela morava em mim dia e noite, como uma silênciosa nostalgia; eu a desejava como se desejam as coisas perdidas pra sempre."
- A Brincadeira
  • "Nós escrevemos porque nossos filhos se desinteressaram de nós"
- O Livro do Riso e do Esquecimento
  • "Se pode com razão, criticar o homem por ser cego a esses acasos, privando a vida da sua dimensão de beleza."
- A Insustentável Leveza do Ser
  • "O humor: centelha divina que descobre o mundo na sua ambigüidade moral e o homem em sua profunda incompetência para julgar os outros: o humor: embriaguez da relatividade das coisas humanas, estranho prazer nascido da certeza de que não há certeza."
- Os Testamentos Traídos
  • "Será que o amor absoluto não significa que devemos amar o outro com td que há nele e sobre ele, inclusive as suas sombras?"
- A Valsa dos Adeuses

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

mar revolto...


Às vezes questiono meu mau jeito com as coisas e pessoas. Às vezes machuco ou esfrio sem explicações plausíveis (e há explicações para tudo?). Às vezes quero simplesmente estar só e em silêncio, quero deixar a toalha molhada na cama, quero não precisar dizer que amo, quero ser egoísta: quero não pensar.

Nesses momentos em que quero tudo e não quero nada, descubro mais uma porção do pequeno maremoto que se movimenta dentro de mim. Algo devastador vem crescendo de dentro para fora, algo fora de controle - porque eu não tenho controle. E isso impede a ação do meu altruísmo. Estou mergulhada em mim. E o meu oceano é vasto e sem horizonte, pois não tem um fim decifrável.

Não há fracasso, mentira ou embaraço; não há culpados: há apenas o chão sem limite abaixo dos pés. Há um "sem" número de razões para querer ver tudo de fora, num ângulo diferente. Há essa inquietação de um tempo do qual não me recordo. Há esse desejo de caminhar, sem parar, até a curva do mundo (onde ela começa?).

Aqueles que se perguntam o que se passa em minha cabeça ou o que eu sinto, estão perdendo tempo. Eu sinto, apenas, sem pretensão de tornar inteligível o que acontece dentro de mim.

Mas se alguém conseguir suportar meu silêncio e minha ausência, sem questionamentos ou indagações, poderá seguir ao meu lado - se assim desejar. Basta estender a mão.


sábado, 23 de agosto de 2008

sobre a boca...

Existe algo mais instigante que a boca? A boca que beija, fala, sorri, lambe, cala... As grandes conquistas começam, nela, essa maldita, a boca.
O beijo, por exemplo, é a conquista amorosa, sexual - no âmbito carnal, claro. Ao contrário do que muitos pensam, o beijo é o que conduz o corpo à cama. O outro pode ser belo, forte, atraente, mas é preciso que os lábios se encontrem para firmar o pacto da conquista iniciado pelos olhos. É o hálito, a textura, o ritmo que a outra boca impõe que faz o corpo tremer, ficar em estado de êxtase. É o gemer baixinho entre línguas e dentes que excita e incita o ser a levar adiante o rito corporal. São as palavras ditas em silêncio; são os sorrisos entre um beijo e outro; são as línguas que lambem e sentem e mapeiam e marcam o outro; são as frases curtas depois da efervescência do espírito.
Que me perdoem os (des)crentes, mas a boca é a dádiva divina materializada no corpo do homem...

domingo, 17 de agosto de 2008

Jabor...

Postado por "E AGORA, JOSÉ?" em seu blog e copiado aqui, por mim...

Texto do Arnaldo Jabor
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Na hora de cantar todo mundo enche o peito nas boates, nos bares, levanta os braços, sorri e dispara: "eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também". No entanto, passado o efeito do uísque com energético e dos beijos descompromissados, os adeptos da geração "tribalista" se dirigem aos consultórios terapêuticos, ou alugam os ouvidos do amigo mais próximo e reclamam de solidão, ausência de interesse das pessoas, descaso e rejeição. A maioria não quer ser de ninguém, mas quer que alguém seja seu. Não dá, infelizmente, para ficar somente com a cereja do bolo - beijar de língua, namorar e não ser de ninguém. Para comer a cereja é preciso comer o bolo todo e nele, os ingredientes vão além do descompromisso, como: não receber o famoso telefonema no dia seguinte, não saber se está namorando mesmo depois de sair um mês com a mesma pessoa, não se importar se o outro estiver beijando outra, etc, etc, etc. Desconhece a delícia de assistir a um filme debaixo das cobertas num dia chuvoso comendo pipoca com chocolate quente, o prazer de dormir junto abraçado, roçando os pés sob as cobertas e a troca de cumplicidade, carinho e amor. Namorar é algo que vai muito além das cobranças. É cuidar do outro e ser cuidado por ele, é telefonar só para dizer bom dia, ter uma boa companhia para ir ao cinema de mãos dadas, transar por amor, ter alguém para fazer e receber cafuné, um colo para chorar, uma mão para enxugar lágrimas, enfim, é ter "alguém para amar". Somos livres para optarmos! E ser livre não é beijar na boca e não ser de ninguém. É ter coragem, ser autêntico e se permitir viver um sentimento.
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Arnaldo Jabor para as mulheres com mais de 30
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Isto é para as mulheres de 30 anos pra cima. E para todas aquelas que estão entrando nos 30, e para todas aquelas que estão com medo de entrar nos 30. E para homens que têm medo de meninas com mais de 30!!! A medida que envelheço, e convivo com outras, valorizo mais as mulheres que estão acima dos 30. Estas são algumas razões do porquê: - Uma mulher de 30 nunca o acordará no meio da noite para perguntar: “O que você está pensando?” Ela não se importa com o que você pensa, mas se dispõe de coração se você tiver intenção de conversar. Se a mulher de 30 não quer assistir ao jogo, ela não fica à sua volta resmungando. Ela faz alguma coisa que queira fazer. E, geralmente é alguma coisa bem mais interessante. Uma mulher de 30 se conhece o suficiente para saber quem é, o que quer e quem quer. Poucas mulheres de 30 se incomodam com o que você pensa dela ou sobre o que ela esta fazendo. Mulheres dos 30 são honradas. Elas raramente brigam aos gritos com você durante a ópera ou no meio de um restaurante caro. É claro, que se você merecer, elas não hesitarão em atirar em você, mas só se ainda assim elas acharem que poderão se safar impunes. Uma mulher de 30 tem total confiança em si para apresentar-te para suas melhores amigas. Uma mulher mais nova com um homem tende a ignorar mesmo sua melhor amiga porque ela não confia no cara com outra mulher. E falo por experiência própria. Não se fica com quem não confia, vivendo e aprendendo né??? Mulheres se tornam psicanalistas quando envelhecem. Você nunca precisa confessar seus pecados para uma mulher de 30. Elas sempre sabem… Uma mulher com mais de 30 fica linda usando batom vermelho. O mesmo não ocorre com mulheres mais jovens. Mulheres mais velhas são diretas e honestas. Elas te dirão na cara se você for um idiota, se você estiver agindo como um! Você nunca precisa se preocupar onde se encaixa na vida dela. Basta agir como homem, e o resto deixe que ela faça. Sim, nós admiramos as mulheres com mais de 30 por um “sem” números de razões. Infelizmente, isso não é recíproco. Para cada mulher de mais de 30, estonteante, inteligente, bem apanhada e sexy, existe um careca, velho, pançudo em calças amarelas bancando o bobo para uma garçonete de 22 anos. Senhoras, EU PEÇO DESCULPAS: Para todos os homens que dizem, “porque comprar uma vaca se você pode beber o leite de graça?”, aqui está a novidade para vocês: Hoje em dia 80% das mulheres são contra o casamento, sabe por quê? Porque as mulheres perceberam que não vale a pena comprar um porco inteiro só para ter uma lingüiça. Nada mais justo.”
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Viva às Balzaquianas!


sábado, 16 de agosto de 2008

alma imortal...

À medida que abro os olhos e caminho, passo por mentes pequenas, pérfidas, fúteis. Vejo passos temerosos e mentiras esfarrapadas. Vejo gente que se faz infeliz pelo simples prazer de sê-lo. Sinto o cheiro forte do medo apodrecendo as vísceras dos outros. Os vivos são quase-mortos que esqueceram a identidade e vivem à sombra do óbvio.

O homem caminha à beira da sanidade forçada. A normalidade é uma doença incurável. São todos mornos, comuns, iguais. A filosofia foi enterrada e esquecida. A paixão, adormecida.

Sinto os olhares com estranheza quando falo a minha verdade. É minha verdade apenas: a realidade do meu mundo, onírico ou não, pois há dias de sonho e dias em que a realidade fere a carne. E vejo os miseráveis ajoelharem-se cavando os sete palmos das próprias covas, sujando as mãos na terra onde vomitaram infâmias e injúrias. E o ceifador observa, de longe, com um sorriso irônico de dentes tão podres quanto a própria alma.

Não tenho a pretensão de fazer sentido aos outros. Nem de fazer sorrir ou chorar. Desejo apenas ser e sentir o que é meu, o que vem de mim, o que me inunda de dentro para fora. Quero viver ao lado da minha loucura por uma eternidade cuja cronologia foi inventada por mim.

Fui acometida pela "síndrome da imortalidade". Acredito realmente que nunca deixarei esse mundo. Eu vivo, corro, grito, calo, durmo, sofro. Mas morrer, isso nunca! Porque meu corpo vai definhar e apodrecer com a idade avançada que corrói a carne e tudo o que é matéria. Mas minha alma, meus caros, essa é imortal.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

MASQUERADE




MASQUERADE

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Uma caleidoscópica multidão colorida e sem face fervilhava pelas ruas, envolta em confetes e purpurina num pandemônio de alegria vulgar, até a hora mais negra que antecedia a aurora. Então, todos se iam, como uma legião de vampiros anônimos a fugir do sol. Os que restavam, impossibilitados de se lembrarem de onde pertenciam, eram o retrato trágico da solidão e do excesso. Atrás de suas máscaras, homens e mulheres se escondiam e mostravam o que verdadeiramente possuíam dentro de suas almas. Alegria regada a vinho, nos cantos mais escuros das ruelas e becos se tornava perversa e excitante, e a carne convenientemente mais fraca. Anjos, demônios, gênios, clowns, piratas, mandarins, sultões, odaliscas, magos, bruxas, reis, princesas, samurais, gueixas, gregos, romanos, ninfas, melindrosas, bailarinas, ciganas, cleópatras. Cada ser do imaginário da humanidade desfilava languidamente pelo luar, provocando com sua exposição dos corpos e seu ocultamento de identidade; sem contar as caricaturas das figuras mortais pervertidas em erotismo como os padres, monges e freiras, aos beijos com o bestiário profano. Se deus não existe, tudo é permitido, assim era o carnaval.
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Em meio ao mar onírico, uma figura que trazia consigo a insolência da beleza despudorada, a ousadia da alegria insensata, o suspiro da leveza inquietante valsava sem querer valsar com sapatilhas herméticas através da horda bizarra. Ela deslizava misturando em seus movimentos a malícia de serpente e a vaidade felina, o aroma fresco da brisa primaveril era visível no róseo pálido de sua pele e os que sentiam seu caminhar próximo eram tomados momentaneamente pelo delírio de se sentirem vizinhos do paraíso. Acompanhando a inesquecível figura, orbitando em sua volta e sendo ignorado por ela, um fantasma ebúrneo de olhos negros murmurava choramingos poéticos apaixonados, cultuando sua pequena deusa inacessível e pretensiosa. Mesmo sendo patético, algo perturbador nesse servo afastava quaisquer outros pretendentes, seu sofrimento é o que fabricava o ódio em seu íntimo, transformando sua derrota em uma pérola de puro terror. A fada do desejo alimentava seu guardião com desdém, assim ela podia escolher alguém igual a ela, tão insano, febril e etéreo sem ser importunada pela malta em massa.
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Passeando a esmo, chegaram a uma praça antiga com estátuas de conquistadores esquecidos e monumentos ignorados, onde o violino, a flauta, os pandeiros, os tambores e a mágica circense faziam da turba, títeres dançantes quais macacos adestrados. Cuspidores de fogo imitavam dragões fantásticos enquanto engolidores de espadas saboreavam Excalibur, palhaços se esbofeteavam em algazarra tola na fonte de pedra, enquanto no alto das pernas-de-pau, acima dos demais, os malabares incandescentes confundiam o bobo-da-corte com um anjo de luz. O coração de passarinho se encantou imediatamente pelo gigante vagabundo, que em um salto e uma cambalhota desceu de seu andor para cumprimentar a donzela de cristal. Os olhos se cruzaram, uma vertigem tomou a moça que perdeu o rumo nos losangos negros e vermelhos do traje da estranha deidade. Tão insólita quanto ela, talvez. Se o dueto silencioso de encanto do casal recém-descoberto não fosse tão ensurdecedor, eles poderiam ouvir o coração do espectro se partindo enquanto desaparecia com uma única lágrima a rolar por seu rosto e os punhos cerrados lutando contra uma tempestade n’alma.
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A princesinha acostumada a ter homens que apenas beijavam seus pés, de repente encontrou um que não só lhe empregava os lábios de lábia em sua mão, como a enfrentava de frente, encarando seus olhos com a certeza de enxergar sua alma. E ela creu nessa ilusão, vendo na fanfarronice, realeza. Apaixonara-se pela megalomania do dançarino mascarado com o cetro de madeira, ele sorriu ao ver tamanha bobagem inocente em tão fácil presa, e tocou as notas certas para levá-la onde ele desejava. Escapulindo da feira, ele a levou por escadarias e ruas estranhas e cada vez mais escuras e vazias até chegar a um beco onde um coche abandonado escondia um portão de ferro. O cavalariço enigmático, por uma algibeira de moedas, entregou a chave da entrada para o bufão que convenceu a musa dos ais a acompanhá-lo para tomar o melhor vinho que ela já provara. Uma sombra seguia as fitas esvoaçantes e o tilintar dos guizos, escondida por entre os ossuários de uma família poderosa que se desfez pelas gerações, tendo suas catacumbas funerárias transformadas em adega.
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Enfim encontraram uma parede com dois enormes barris, a ingênua menina ainda tentou entender o que estava errado, quando o diabrete louco mostrou suas garras agarrando-a, rasgando suas fitas, o cetim e a seda. Seus gritos foram calados por beijos soluçantes, até a pausa surpresa. O coringa se afastou com nojo, salivando como quem está prestes a vomitar, a sua Colombina, tão delicada e bonita era um homem! Cambaleando, o Arlequin fugiu aos tropeços do rapaz divino e andrógino que chorava tanto pela recusa, como pela estupidez de se deixar enganar. Apenas nas efêmeras noites de carnaval é que o jovem podia ser livre e desejado. Poderia seguir por anos assim, respirando sonhos nas noites carnavalescas, desde que se controlasse e não se deixasse levar para não ter a sua fantasia descoberta. Agora tudo estava acabado.
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Da escuridão surgiu Pierrot e ajoelhando-se, beijou os pequeninos pés de Colombina, subindo por suas pernas e coxas, lavando a pele maltratada com suas lágrimas e com o seu hálito quente até encontrar a língua quente e seu pequeno milagre. Finalmente feliz.
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POSTADO POR E AGORA JOSÉ?

domingo, 10 de agosto de 2008

gray and cold...


Aymée aproximou-se da janela e observou o céu nublado. Era um cinza estranho e frio, porém com um encantamento melancólico, um quê de indecifrável. O mar agitava-se a 50 metros de sua janela, misteriosamente.
O vento soprava cantigas que relembravam a infância e Aymée cantarolava para não esquecê-las. Precisava ter o passado presente para que não esquecesse sua identidade. E as ondas que dançavam no mar agitavam-lhe também o estômago, o peito, a alma. O vento cantava para o mar valsar, e Aymée, testemunha da comunhão perfeita, invejava o baile a sua frente.

Lembrou-se das longas viagens de carro de quando ainda era apenas uma menina. O vento sempre cantava. E as ávores agitavam galhos e folhas, harmonicamente. A pequena Aymée viajava com os olhos grudados na janela, imaginando como seria correr pelos campos que avistava, como seria perder-se nas imensas florestas de araucárias ou se deitar nos pastos verdes e cheios de colinas que passavam rapidamente pelos seus olhos. Por esse motivo, Aymée sempre preferiu as viagens de carro, pois nelas podia ver tudo: céu e terra, nuvens e pastos. Não havia melhor lugar para avistar nuvens do que do chão. E as estradas revelavam nuvens de todos os tipos e formas, enquanto apostava corridas imaginárias entre o carro e as partículas de água suspensas na atmosfera. E a sofreguidão pueril as transformava em animais e algodão doce, em crianças brincando de roda e tristes pierrôs a soluçar por suas colombinas.

Uma gota atingiu o nariz de Aymée e a trouxe de volta à realidade do dia cinza, deixando para trás as nuvens brancas e os campos verdes de sua infância. E Aymée perguntava-se em silêncio por que o mundo dos adultos mudara a cor de suas nuvens, o calor de seus dias, o verde de seus campos, o encantamento de suas estradas.

De repente tudo era cinza e frio. E havia um enorme oceano a sua frente. E uma outra pátria depois dele.
Um soluço seco irrompeu de sua alma e fez vibrar o corpo de saudade...

sábado, 9 de agosto de 2008

LADO B


LADO B
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É fácil amar esse seu sorriso
Quem não se rende ante aos seus olhos?
Ouvir sua voz quente em uma conversa inteligente
O calor da pele, o perfume, o toque, o beijo doce
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Mas pra mim, falta algo nessa pintura
Não quero só a sua superfície de musa
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Mas pra mim, não basta esse sonho breve
Não quero só uma lembrança de uma noite leve
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Quero ouvir até o som da caixinha-de-música
Que você esconde no escuro do porão
Quero também conhecer o que o seu lado B tem a me dizer
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É fácil se apaixonar por uma noite
Se entregar com os olhos abertos
Não é culpa de ninguém se surpreender
Pensando em como é bom ter você por perto
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Mas ignorar o mistério
A chance de mergulhar
De poder ter mais do que o óbvio
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A intimidade inesperada, felicidade desesperada
De te querer, sem medo, sem jogo, sem dúvida
É o que preciso
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Procurar nas lembranças de uma história incompleta
As chaves para os segredos divididos só com a pessoa certa
E compartilhar dos sonhos perdidos de um náufrago
Enfrentar maremotos e celebrar a bonança
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Saber coisas que não precisam ser ditas
Mas que fazem bem se dizer a alguém
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Quero ouvir até o som da caixinha-de-música
Que você esconde no escuro do porão
Quero também conhecer o que o seu lado B tem a me dizer

domingo, 27 de julho de 2008

meninas...


Narcise acabara de completar 18 anos. A idade adulta trazia o peso da maturidade que não queria. Tinha um ar astuto e misterioso, o que provocava frisson nos homens e meninos que a cercavam.
Sophie, aos 16, era mais madura que as meninas de sua idade, mas mantinha um jeito deliciosamente imaturo no seu jeito de olhar. Andava sem a precupação de quem desejava ser vista. A franqueza dos olhos pequeninos e rasgados do rosto branco como o de um anjo assustava os outros e criava, de alguma forma, uma área de proteção ao seu redor, lugar onde somente havia espaço para os convidados.
Narcise, com a gravidade de quem já havia provado dissabores de desamores, carregava um quê de melancolia no olhar, como se estivesse a espera de um milagre ou sinal que a chamasse de volta para a vida.

E foi numa manhã de inverno que os olhos se encontraram. Olharam-se e sorriram. Ambas acenaram com a cabeça, cumprimentando-se.
Sophie, sentindo algo explodir dentro do peito, tratou de saber quem era a moça dos olhos castanhos claros. Narcise sentiu a face ruborizar e as mãos suarem. Falaram pouco. Os olhos conversavam em silêncio, enquanto o resto do mundo passeava em torno delas.
Assim seguiram ao longo dos dias, conhecendo-se e identificando as afinidades. Enquanto Sophie perdia-se nos grandes olhos de Narcise, essa mordia os lábios pequenos e cheios, esperando - mesmo que inconscientemente - a coragem para avançar e sentir a pele macia da outra menina.
Ao mesmo tempo que era tomada por um desejo incontrolável, outro sentimento a remoía por dentro: o medo. Narcise tinha medo de apaixonar-se perdidamente pela outra, pelo gosto da boca perfeita e rosada, pelo cheiro da pele branca, pelo toque daquelas mãos que gesticulavam impacientemente. Do outro lado, Sophie era incisiva e audaz, e cortejava Narcise como se não tivesse dúvidas ou medos em seu céu.

Todas as inseguranças trancadas no quarto escuro da alma de Narcise sumiam quando via os pequenos olhos rasgados sorrindo em silêncio para ela. Havia cumplicidade quando se olhavam...
A platonice da paixão sáfica rompeu-se numa tarde em que, deixadas a sós, Narcise caminhou na direção de seu pequeno anjo e tocou seu rosto, aproximando-se lentamente de seus lábios e roubando-lhe um beijo terno. Foi a vez da pequena Sophie ter o rosto em fogo.

Beijaram-se como se não houvesse mundo. Beijaram-se e deixaram os corpos encontrarem o caminho para sua realização. Sophie cuidadosamente tocou o corpo de Narcise, começando pelos seios. A pequena boca carnuda emitiu gemidos suaves, entreaberta e encostada nos lábios de Sophie, que explorava Narcise com a língua.
Narcise sentia a coxa de Sophie pressionando-lhe o meio das pernas, como se quisesse abrir caminho por ali.
Por baixo da saia, Narcise molhava-se a cada toque de Sophie, entrando em desespero com a proporção que seu desejo tomava. Sentiu as mãos de Sophie puxando sua calcinha para o lado, encontrando seu sexo com os dedos. Gemeu novamente e abriu-se mais, pois queria entregar-se completamente à outra.

Sophie beijava Narcise sem parar, enquanto seus dedos exploravam o interior macio, quente e úmido de suas pernas. Homem algum havia tocado Narcise daquela forma doce.

Com dois dedos dentro dela e a palma da mão roçando seu clitóris, Narcise explodiu em orgasmo, gemendo e arfando com a língua de Sophie enterrada em sua boca.
E quando o pulso voltou ao normal, trocaram mais carícias e adormeceram juntas, semi-nuas, como ninfas de tempos imemoriais.
Narcise havia encontrado seu pequeno milagre...

when dreams come true...


Noite passada Marie sonhou ser um anjo... Um anjo maldito, talvez... E voava com o corpo branco nu e o sexo molhado. Os pés deixaram o chão e uma sensação entorpecente nasceu no ventre e transformou-se em pequenas descargas elétricas que rumavam para as extremidades de seu corpo. Sentia-se, enfim, livre.
Uma boca macia tocava a sua... Entre suas pernas, a mão causava-lhe espasmos incontroláveis que quase traziam lágrimas aos olhos... O ritmo era perfeito, divino. Só os anjos poderiam sentir algo parecido. E a outra boca, antes entretida na sua, deslocou-se em direção aos seios, provocando-lhe pequenos gemidos descompassados. Estaria mesmo sonhando? Talvez o mundo real a tivesse abandonado. Talvez a razão tivesse cedido lugar ao sonho, aos desejos, à imaginação.
A boca sussurrava palavras numa língua estranha, num tom baixo e rouco. O quadril dançava involuntariamente, ao ritmo do tango que tocava apenas para ela. E no auge da composição que se desenrolava apenas em sua cabeça, sentiu a espuma branca e espessa cobrir-lhe os seios, com um grito contido na garganta. Com os olhos fechados e as coxas entreabertas, sentiu um calor insuportável tomar-lhe a alma...
E quando o calor transformou-se em orgasmo, despertou, retornando à realidade dos lençóis.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

orquídea...


Acendeu um cigarro e continuou escrevendo. Às 5:00 da manhã o sono já havia abandonado completamente o quarto. E entre a noite que dava adeus e o dia que iniciava sorrindo em laranja, o silêncio era uma dádiva divina.
Quando estava assim, dentro de si mesma e sem vontade de gritar ao mundo que precisava de um pouco de paz, entendia perfeitamente quando lhe disseram certa vez que nem tudo necessita ser expresso em palavras. Mas ela, em seu íntimo, assumia seu fetichismo exagerado por elas - palavras - e sabia que devia haver um ponto de equilíbrio.

Certas indagações consumiam seu peito há dias. Aquele desconhecido de longa data parecia-lhe estranhamente mais íntimo. Sim, eram íntimos e intensos dentro do claustro de um cômodo, mas quando as paredes fugiam do redor, afastavam-se de uma forma ininteligível, obscura, misteriosa. Eram breves momentos de felicidade que enchiam-lhe o peito e depois abandonavam o corpo por algum tempo, até que as ruas novamente se cruzassem. Eram ruas distantes e ele mesmo indagava-lhe a lógica dessa metáfora. Ela apenas sorria, porque aquilo fazia lógica apenas para ela, uma lógica-sem-lógica que ela inventou para sorrir.

Por vezes sentiu vontade de fazer perguntas para as quais precisava de respostas, mas acabou preferindo o silêncio, pois sabia que, de alguma forma, era melhor tentar aprender a ler os sinais do outro. Talvez em um dos beijos ou dos olhares ou dos carinhos houvesse um leve indício de que ele a desejasse com a mesma intensidade que ela. Talvez...

Enquanto sua cabeça vagava, o sol subia e a luz começava a invadir o quarto. Na janela, uma orquídea imaginária sorriu para ela.

Era o quadro perfeito...

domingo, 20 de julho de 2008

stairway to desire...

Heaven or hell?


dias assim...


Há dias em que a cama parece maior... E dias em que a água do banho parece mais fria... E o quarto mais silencioso... E o coração bate mais forte e mais rápido...
Há dias em que a saudade aperta e o desejo aumenta... Dias em que a voz ao telefone soa calma e carregada de desejo... e essa voz arrepia os pêlos e aguça a memória...
Há dias em que quero voltar ao começo e fazer tudo de novo... ou tudo diferente... pra trazer tudo de volta, pra sentir tudo novamente em mim...
Há dias em que quero banho morno e dormir junto no frio para poder me aquentar...
Há dias assim, em que quero tanto e posso tão pouco...

Mas sempre haverá outros dias...
Sempre.


quinta-feira, 10 de julho de 2008

palavra calada


Maldita fome.
Maldito abismo.
Maldita dor.
Malditos hábitos.
Malditos livros.
Maldita dúvida.
Malditos dias.
Noites.
Madrugadas insones.

Maldita erva.
Maldita fala.
Malditos sonhos.
Maldita pena.
Maldito olhar.
Maldita ausência.
Maldito amor.
Maldito mau-humor.
Maldita palavra "mal-dita".
Ou não-dita.
Calada.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

pequeno diário amoroso...

Uma espécie de breve relato sobre o amor, tendo como estudo de caso duas criaturas insanas:
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Dia 24/01:
- Você não vai me convidar para dançar?
- Não sei dançar, mas posso tentar não pisar nos seus pés.
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Dia 31/01:
- (...) como eu disse, só escrevo para alguém quando estou apaixonado. A única vez que escrevi para alguém sem ser você foi para uma menina, a minha primeira paixão (e primeira frustração). Deixei a folha na caixa de correio dela; agora escrevo todo dia para você...
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Dia 06/02:
- Acabei de controlar um pequeno maremoto: quase senti ciúmes...
- Você tem olhos de leoa, rostinho lindo, mas olhos de Hera.
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Dia 09/02:
- E o que eu tenho pra te oferecer?
- Esse amor sem medida, sem cercas, que me faz sorrir como menina que não sou mais e sonhar com casas de campo com você...
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A partir daí, seria necessário usar como metodologia a história oral...

quinta-feira, 3 de julho de 2008

olhos...

Angélique tinha o semblante puro como o de um anjo e colo e ombros dourados de sol, o que não impedia que suas coxas fossem alvas como nuvens, macias como só elas podiam ser. E os olhos de moura*, aquelas grandes janelas castanhas e claríssimas, transparentes à luz, seduziriam o mais racional e contido dos mortais.


Com sua saia plissada e as meias até os joelhos, Angélique caminhava, descuidada, com uma sensualidade comovente, ingênua e indecente. Sentava-se sem modos, deixava o cabelo em desalinho, e a aparente falta de intencionalidade em seu comportamento era justamente o que a tornava excessivamente sensual. Talvez tivesse se inspirado na Lolita de Nabokov e reconstruído a personagem... Talvez...
Angélique, aos 15, comportava-se como se ainda estivesse no início de sua adolescência, e talvez passasse por 12 ou 13 anos, não fosse seu corpo tão sinuoso e seios tão atraentemente cheios.

As aulas de música eram as que Angélique mais gostava. O professor, demasiadamente atencioso, um homem de meia-idade, era alvo do desejo de outras professoras, algumas casadas. Não era alto nem propriamente a reencarnação de Adonis, mas era um homem de cultura e visão ímpares, o que o tornava extremamente atraente. Discreto e contido, falava pouco sobre sua vida. Mas ao ver Angélique, seus olhos brilhavam como os dos adolescentes famintos que a desejavam com toda a força.

Angélique não gostava tanto assim da prática musical - preferia a história da música - da mesma forma que muitos artistas preferem história da arte à prática da pintura ou escultura, por exemplo. E isso a fazia demorar-se mais 15 ou 20 minutos após o término das aulas, para que o professor contasse histórias que alimentavam sua imaginação púbere. E a forma como a pequena se debruçava sobre sua mesa o deixava aturdido.
Já passava da hora de Angélique voltar para casa, mas ela insistia veementemente que o professor contasse sobre o surgimento da música de salão, com os olhos castanhos e enormes vidrados em seu rosto, ansiosos pela história que estava por vir.

O professor pela primeira vez recusava um pedido seu, por conta de um compromisso inadiável. Angélique fez beicinho como criança, uma visão que enchera seus olhos de emoção. Num pulo, a ninfeta foi da mesa ao colo do mestre, que quase chorava de comoção e desejo. O hálito de framboesa e os lábios carnudos eram um convite ao beijo, mas ele não podia tocá-la fora de seus sonhos, longe do refúgio de sua cama, onde masturbava-se chamando seu nome angelical e pedindo clemência aos deuses por seus pensamentos proibidos.

Excitado, ofereceu-lhe carona. A pequena disse que aceitaria se ele prometesse contar-lhe a história que pedira durante o percurso. Com um sorriso trêmulo, aceitou. Desejava sair dali, correr para algum lugar deserto e gritar todo o amor contido em seu peito. Seria imundo se a tomasse, imaginou. Ela era apenas uma menina...

No caminho para o estacionamento, Angélique tagarelava ao lado do professor, em direção ao carro, dando pulinhos enquanto contava os pormenores de seu primeiro baile. Ele mal ouvia as palavras pronunciadas por ela, focando sua atenção nos lábios que se abriam e fechavam e faziam bicos deliciosamente provocantes, formando um botão rosado e perfeito.

Sem controle de seu corpo e de seus pensamentos, caminhou teso ao lado da menina até chegarem ao carro, onde abriu a porta para que ela entrasse. Angélique sentou-se e ele fechou a porta, dando a volta para entrar pelo outro lado. O suor escorreu pelo canto do rosto ao ver a saia bem levantada, deixando à mostra as coxas brancas e perfeitas. Sentia o sexo pulsar incontrolavelmente dentro das calças, então pôs os livros no colo para que ela não notasse.

Assim que começou a dirigir, Angélique abriu as pernas, olhando de soslaio para ele e sorrindo maldosamente. Ele, nervoso, fingia que não via e tremia ao volante, agitado como nunca estivera antes. E ela, totalmente diferente da ingênua menina da sala de aula, enfiou a mão dentro das coxas, puxando a calcinha para o lado e tocando o sexo virginal, quase levando à loucura seu pobre mestre. Desajeitado, deixou que os livros caíssem durante a condução, revelando sua excitação e uma mancha molhada no tecido da calça fina, o que fez a menina soltar um gemido irônico.

E enquanto seus dedos exploravam o próprio sexo por baixo da saia plissada, a outra mão buscava tocá-lo enquanto conduzia, fazendo com que ele pedisse para que ela parasse com aquilo. No fundo, Angélique fazia o que ele mais desejava... Mas o medo de ser pego, de sucumbir à tentação de tomá-la como mulher aterrorizava sua alma e sua razão o dizia para não ir além das carícias... Só as carícias eram permitidas, pensou.

Sem conseguir continuar conduzindo o veículo - as pernas não mais obedeciam - parou o carro numa pequena trilha pelo caminho e beijou Angélique. A boca e a língua eram experientes, valsavam com nobreza em sua boca pequena e rosada. E as mãos fortes saltavam por dentro da blusa branca e fina da colegial, arrebentando, sem querer, o primeiro botão do decote. Os seios redondos e cheios enchiam a sua mão perfeitamente, como se feitos sob medida para elas. E os bicos jovens, virginais e lisos, eram macios como seda.

Num acesso de loucura, Angélique abriu a blusa toda, arrebentando os outros botões, e acertou o rosto de seu professor com um tapa. Atônito, afastou-se. Olhou para a menina aterrorizado, com medo de ter ultrapassado todos os limites. E Angélique, rindo, tirou a calcinha molhada e o obrigou a mastigá-la, esfregando a excitação em sua cara. Chocado, ele obedeceu. Com o pé - ainda com a meia - afastou-o de si, abrindo ainda mais as coxas para que ele se deliciasse com a visão do sexo fresco e molhado. Os poucos pêlos estavam melados, encharcados do desejo enfurecido da ninfeta. Mandou que ele abrisse a calça e se masturbasse para ela, da mesma forma que fazia quando estava sozinho em sua cama fria. Sem resistência alguma, pôs-se a tocar o sexo com um vigor assustador, enquanto a adolescente olhava, satisfeita. Com um único movimento, Angélique colocou-se à sua frente, encaixando os seios no sexo duro, como fazem as putas experientes. Começou a masturbá-lo com os seios, uma visão divina. Com uma das mãos tocava-se, enlouquecendo o homem e impregnando o carro com seu cheiro doce e jovem.

Enquanto ele chorava apertado entre o volante e o banco, com as costas na porta do carro, a guria enfiava-lhe as unhas na virilha, como se o estivesse punindo. E era óbvio que sentia prazer nisso. O professor, sem saber se ela o rechaçava ou desejava, derramava lágrimas sobre o peito nu, olhando as mechas do cabelo desalinhado de Angélique cobrindo os olhos que tanto amava...

Novamente, como uma louca, Angélique jogou a cabeça para trás e acertou outro tapa no rosto de seu professor, dessa vez ainda mais forte. Mas ser subjugado pela menina diminuía sua culpa... e satisfazia um lado seu que desconhecia. Aquela cadelinha o estava dominando como se fosse uma mulher adulta, experiente, decidida. Estranhamente, aquela atitude fazia crescer seu desejo. Sua vontade era rasgar Angélique com seu sexo, mas ao mesmo tempo queria preservá-la, adorá-la como a um anjo.

E então o anjo dourado ofereceu-lhe o meio das pernas, puxando seu rosto na direção daquela flor molhada que tinha entre as coxas. Ah, como ele queria comê-la... Mas quando aproximou a boca do sexo molhado, ela virou-se de costas, rosnando, mandando que ele batesse nela. Cada vez mais chocado e excitado, deu-lhe um tapa leve. Ela riu novamente e abriu a porta do carro, saindo semi-nua para a frente do veículo.

Sem noção da situação em que se encontrava, o professor saiu nu atrás da ninfeta, que debruçou-se no carro, oferecendo-lhe as costas e abrindo-se enquanto se masturbava novamente. E, abandonado pela razão, penetrou violentamente a jovem por trás, já sentindo espasmos violentos a tomar-lhe o corpo, anunciando que encheria a porção empinada e aberta de Angélique. Mas o pequeno diabo encarnado no corpo da adolescente virou-se e o encarou tão profundamente que quase o hipnotizou. Desceu lentamente até o chão, arranhando as pernas do homem até que o sangue brotasse da pele, deitando-se, enfim, no tapete de folhas secas outonais.

Ali estava ela, seu pequeno amor, totalmente aberta e oferecendo o sexo virgem de seu corpo maldito. Ela queria que ele a fizesse mulher. Ela pedia para ele tomá-la. E quando, enfim, seu corpo pôs-se sobre o dela, escancarando a carne com estocadas brutas e descompassadas, Angélique revelou que já não era virgem. Enquanto ele a comia forte e fundo, a jovem musa revelava que já havia seduzido mais de 20 homens, que ele era apenas mais um fraco que sucumbia à beleza virginal da mais puta das ninfetas.

Angélique morreu asfixiada, aos 15 anos, com os olhos enormes, oblíquos, castanhos e transparentes abertos, após ser currada e surrada por horas, assim dizia o jornal local.

*um agradecimento especial a Lúcia Welt, pela expressão "olhos de moura".

sábado, 28 de junho de 2008

drops

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Senti raiva do mundo. Raiva de mim. Raiva dos outros.
Senti na boca um gosto amargo que fazia ameaças insistentes.
Peguei a chave do carro, saí, bati a porta de casa, atravessei a rua correndo, deixei o mundo pra trás. Lembrei que não sabia dirigir. Fui embora.
Sentei à beira do mar e chorei; chorei pra colocar aquela porção má de mim pra fora, pra derramar o que eu não queria mais, pra liquefazer a dor.
Mas a lembrança viva olhou pra mim e sorriu. E falou. E despediu-se com um beijo de boa noite e um aceno. Longe, bem longe de mim...
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(se eu rearranjasse, poderia ser um poeminha... ou não...)
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segunda-feira, 23 de junho de 2008

diário de salomé (o confessionário)...

Apesar do meu ofício, nada impede que tenha minhas crenças, que acredite na redenção e no perdão divino.
Lembro-me bem: era terça-feira. Precisava fugir das carolas que freqüentavam a igreja aos domingos e segundas-feiras. Repudiavam abertamente a minha figura, sempre muito bem vestida e com um ar deveras respeitável (quem disse que prostitutas são criaturas amorais ou imorais, enganara-se). Muitas vezes, em tom provocativo, ostentava jóias que recebera por meus préstimos pessoais aos velhos coronéis ou mesmo por gentis cavalheiros galanteadores que, esperançosos, tinham a bela pretensão de me tirar do meretrício e dar-me uma vida "decente", onde passaria a ser esposa e mãe. Na maioria das vezes, as jóias eram presentes dos maridos daquelas senhoras capazes de me apedrejar, se isso lhes fosse permitido. Bem sei, na plena execução de minha profissão, o que acontece a decentes esposas e mães...
Tinha um bom trato com meu confessor, um padre que me acolheu muito bem naquela paróquia desde que cheguei à cidade. Por muitos anos, acompanhei minha "mãe" (a saudosa senhora que me abrigou em seu prostíbulo ainda na fresca adolescência) à igreja, no mesmo dia da semana, para livrar-se (das mesmas) carolas. E ela confessava seus pecados, de coração, pois assim como eu, também acreditava na remissão dos erros.
Naquela noite, meu velho padre caiu doente, impossibilitado de ouvir minha confissão e dar-me penitência. Mas sabia que precisava, mais do que qualquer outro, do perdão divino. Por isso, mandou o novo sacerdote atender-me. O havia visto duas ou três vezes pelas ruas da cidade. O jovem franciscano tinha um ar inocente e, ao mesmo tempo, viril. Sempre fantasiei profanar o templo sagrado, mas isso juntava culpa ao meu desejo. Além do mais, o velho padre era como um pai para mim, o pai que não tive, pois aquele que abusou da minha fragilidade infantil eu via na figura dos velhos que babavam sobre o meu seio, depositando o sêmen escasso dentro de mim. Mas o jovem sacerdote reavivou o desejo imundo que eu escondia.
Comecei a relatar minhas contravenções bacantes, pormenorizando - propositalmente - os atos mais sujos, inclusive aqueles pelos quais já obtivera perdão, pois já haviam sido confessados e devidamente penitenciados. E fazia perguntas ao jovem franciscano, cuja voz tremia, talvez pela inexperiência, talvez pelo desejo que meus pecados provocavam nele.
Dentro do silêncio da velha igreja, ouvia-se apenas vinha voz, baixa, rouca, sussurrando obscenidades ao casto rapaz. E depois de um tempo, ouvia o roçar da mão dele sobre o tecido de sua veste, tentando acalmar o sexo que latejava contra sua vontade. E o meu molhava-se por baixo do vestido longo que usava (por hábito) sem calcinha.
Àquela altura, a culpa já havia me abandonado, e meu demônio interior possuiu-me, fazendo levantar e ir de encontro ao jovem monge, indo para o outro lado da grade. Lá estava o franciscano, sentado, ruborizado e teso por baixo da veste pesada, apalpando-se. Prostrei-me de joelhos à sua frente, em posição devota.
- Por favor, irmã... não...
E antes que pudesse continuar, minhas mãos pequenas e macias levantaram cuidadosamente seu costume, indo de encontro ao sexo ansioso. Ele resistia, e, fraco, tentava impedir, delicadamente, que eu continuasse... até começar a magnificar seu membro com minha boca. Ele estava entregue.
Suas mãos - inábeis - buscavam apoio em algum lugar. Retorcia-se no banco, pedindo clemência a Deus pela imundície de seu ato, e pedia por nós dois. E quanto mais ele pedia, mais excitada eu ficava.
Enquanto o engolia, meus dedos desabotoaram o vestido para que ele pudesse ver meu corpo, tocar minha pele, desbravar meus seios. O sexo puro já pulsava em minha boca, anunciando o gozo, enquanto ele mordia as mangas da veste para não gritar de desespero.
Coloquei-me de pé a sua frente, obrigando-lhe a fitar meu corpo nu, conduzindo sua mão ao interior de minhas coxas. E quando os dedos descobriram a gruta quente e molhada, ele estremeceu, quase gozando somente ao toque. Gemi baixo, retirando sua mão e levando-a à sua boca. Instintivamente, ele abocanhou o dedo, sentindo o gosto que tem uma mulher.
Sem que pudéssemos mais resistir, fomos ao chão. Com o instinto animal que todo homem tem, colocou-se sobre mim, enterrando todo o desejo que sentia entre minhas pernas. E lambia-me o rosto, os cabelos, o pescoço, como um cão no cio.
E veio. Explodiu dentro de mim, depositando o líquido quente e glorioso de sua alma em meu ventre.
Chorou. Eu o acalentei em meu seio e disse que ficaria tudo bem. Ajoelhamo-nos e rezamos juntos, pedindo perdão pelo pecado que havíamos cometido ali, na casa do Senhor.
E meu jovem monge partiu na manhã seguinte, nunca mais retornando à pequena cidade.
Hoje brinco com meu querido amante, suplicando-lhe que seja meu pastor, meu monge, e que me castigue fervorosamente em nossa alcova, para lavar minha alma de todo o pecado que já cometi na vida...
Salomé