EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

vícios...

(Não me culpem por tentar, ao menos uma vez, fazer poesia...ou o que quer que isso possa parecer...)

Não, eu me nego! Isso tem que parar!
Eu quero e não posso...
Velhos vícios em novas doses...
Até quando, meu Deus?
Até quando?

E o pulso torpe continua a pulsar
A vala, o fosso
Covas rasas de dissabores
Cerro os olhos para não me curvar
Afasta! Não posso!
Velhos desejos a me incitar
Arranca do peito essas dores!

E se sigo, louca, cega, tropeçando
Continuo a te perguntar
Até quando, meu Deus?
Até quando?



sobre o demônio...


O demônio ansiava pelo nascimento de seu filho. Esperava o momento de rebentar o choro da criança para que Nina se tornasse definitivamente uma aberração.
Lembrou-se da primeira vez que seus olhos pousaram na pequena Nina. A humanidade conferia-lhe uma doçura incomparável, capaz de deixar de joelhos o mais valente dos mortais, o mais sublime dos deuses, o mais abominável dos demônios. Não, não podia sucumbir à beleza etérea da mulher que carregava no sangue a maldição da humanidade. Precisava desviar os pensamentos da alvura da pele, da graça amável das formas, da brandura das coxas que tomou à força. Sentia queimar um fogo desigual dentro do peito.
Não era apenas o velho desejo mórbido que o consumia. E pela primeira vez a besta sentiu medo. A paixão era a maior das ruínas, a mais infame das maldições. Até mesmo para o próprio demônio. Até mesmo nos cantos mais escuros do inferno.


o vazio da cama...

A cama ficou vazia.
Faltou inspiração, até mesmo para dormir.
A lua se escondeu, não quis brincar comigo. O travesseiro continuou intacto, imóvel, mudo. A cama ficou fria.
Só me resta esperar. Esperar que a nova noite traga de volta a música e a lua.
Eu preciso dançar.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Quer saber o que eu faria? Falava no seu ouvido "eu te amo" até o mundo acabar...

versos...

Ela não sabia fazer poesia. Sabia escrever, mas poesia... nunca!
Leu livros, pediu conselhos, rabiscou centenas de folhas de papel, verificou a órbita de Júpiter. Mas a poesia não estava lá.
Livrou-se dos sapatos, comprou rosas, viu filmes... E nada da bendita poesia.
Guardou lápis e papéis na gaveta da escrivaninha, sem esperanças de encontrar as rimas para os versos que desejava escrever.
Sentiu-se perdida e vazia.
Um dia ela descobriu as rimas perfeitas, a poesia nascendo da alma. Ele escrevia versos em suas costas nuas entre goles de vinho direto da garrafa e poemas de Drummond recitados na cama.
Eles faziam poesia enquanto aprendiam a dançar...


o diário (II)... memórias de uma tanatopraxista...

"Hoje acordei mais feliz, querido diário...
Nunca imaginei que aquele corpo pudesse me fazer tão feliz... Mesmo calado, caladinho ao meu lado, ele faz minhas noites pulsarem de modo arrebatador, onde tenho espasmos de corpo inteiro. É maravilhoso, diferente de todos os homens que já tive.
O roçar de nossas coxas arrepia a minha alma, faz meus olhos revirarem...
Tenho tanto medo de perdê-lo... Mas deitado ao meu lado, vejo que ele não terá forças para me deixar, para fugir de nossa alcova de cetim vermelho.
O amor verdadeiro jamais morre...
Despeço-me aqui, querido diário. Chegou a hora do nosso café da manhã. Para mim, chá e torradas; para ele, outra injeção de conservantes na carótida.

(Acho que preciso aumentar a dose... Meu amor está tão pálido...)"


terça-feira, 29 de janeiro de 2008

sobre a chuva...

As mansas horas do dia rebentaram em laranja nos dourados campos de trigo.
Nuvens passeadeiras escondiam-se atrás dos verdes morros que cortavam o azul do céu. Era a paisagem perfeita do dia ideal. Mas logo as nuvens enfureceram-se e tornaram-se cinzas, pesadas, graves, ruidosas. E a volumosa torrente morna jorrou do céu.
Homens dançavam e celebravam a chuva sagrada nos campos.
Mal sabiam que o líquido era o gozo divino que escorria sobre a terra.


a morte de Morfeu...

Ela, mortal e filha da lua, sonhava enquanto os outros mortais viviam o mundo real, a luz do dia, a falta de esperanças. Hipnos velava seu sono para que não despertasse. Os sonhos eram doces e mornos, superavam qualquer sensação humana jamais gozada.
Morfeu, tutor dos sonhos, havia prometido que não ousaria manipulá-los e que ela poderia sonhar com as cores que desejasse, com as coisas que desejasse, sem interferências ou restrições.
Certo dia Hipnos distraiu-se e Morfeu, indignado por não ter a atenção da filha da lua, tirou-lhe o sonho mais precioso: aquele em que banhava-se nua com o lobo sob a lua, num coito varado e insano, entre juras de amor e indecente cumplicidade.
A mortal enfureceu-se e despertou do sono profundo que os deuses chamavam de paixão. Com a ira de um demônio enlouquecido, estraçalhou Morfeu com as próprias mãos.
Ainda suja de sangue divino, voltou a dormir. Fechou os olhos e sorriu, em paz. Hipnos voltou a velar seu transe eterno. E a mulher sonhou novamente com as juras de amor.
Ninguém mais colocaria a mão em seus sonhos. Nem mesmo os malditos deuses.


domingo, 27 de janeiro de 2008

quero passar-lhe a ponta da língua...

Quero passar-lhe a ponta da língua. Quero sentir o gosto da pele. Quero os pêlos roçando o meio das coxas sem pêlos. Quero passar-lhe a ponta da língua. Quero passá-la inteira, mil vezes, por todo lado. Quero lamber a boca e sentir o cheiro. Quero os olhos que me tiraram o sossego das madrugadas insones. Quero passar-lhe a ponta da língua. Quero saber dos mistérios que guardas entre os dentes. Quero forte, quero muito, quero tudo. Quero esfregar meu cio em teu ventre. Quero as noites inteiras, sem fim. Quero passar-lhe a ponta da língua. Quero teu cheiro em mim para sempre.

(Pois é assim que cães se adoram.)


(re)postando...

"Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Más há também quem garanta que nem todas, só as de Verão.
No fundo, isso não tem importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado."

Shakespeare, Sonhos de Uma Noite de Verão

I've been dreaming with my eyes wide open... day-dreaming...


sábado, 26 de janeiro de 2008

lupus in fabula...

"Speak of the wolf, and he will come."

Com sorte, o lobo aparecerá todas as noites, independente da lua que estiver brilhando no céu.
E terá a cadela como companheira de folguedos, entre pêlos, uivos e caninos famintos, valsando à meia-noite, num cio interminável.
E a lua - nova ou cheia, crescente ou minguante - será a eterna testemunha do lirismo das pândegas noturnas...


sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

a bruxa e o poeta...

Foi numa dessas noites insones e frias que bruxa e poeta encontraram-se.
Ela encantou-se pelas palavras; ele, pelos olhos.
A madrugada silenciou o mundo para que nada os impedisse de dançar. Ela fechava os olhos e sentia as mãos apertando-lhe os quadris enquanto a roupa escorregava pelos ombros. Os dentes marcavam-lhe o pescoço e voltavam para a pequena boca macia, mordendo, beijando, lambendo. Os beijos eram lentos, porém fortes. Eram mais que beijos de línguas. Havia línguas, braços, unhas, corpos inteiros naqueles beijos.
O poeta sentia o perfume que vinha do movimento dos cachos acobreados perto de seu rosto. Os quadris brancos conduziam a dança sobre o outro corpo. A pele marcada de unhas e dentes desejava fundir-se na outra e que aquela música não parasse de tocar. Cantavam em gemidos e aumentavam o ritmo à medida que o desejo crescia e a respiração acelerava. Eram dois loucos, duas crianças, dois amantes das horas da madrugada.
Ouviu-se o uivo dos lobos, o sopro do vento, a explosão do gozo.
Com os corpos enlaçados e entregues à exaustão, o único som que quebrava o silêncio da noite era o das batidas descompassadas que vinham de dentro do peito.
As madrugadas nunca mais seriam as mesmas.

a moça que gostava de sapos...

A moça que gostava de sapos não era uma princesa. Era uma bruxa. E gostava de sapos, vinho, sexo e cafuné. Não necessariamente nesta ordem.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

o fabuloso mundo dos sonhos...

O céu púrpura anuncia as escuras horas do dia, onde igualam-se poeta e assassino, músico e açougueiro.
O azul profundo e os silenciosos instantes que antecedem o sono trazem o terror aos que temem a entrega do espírito à fantasia efêmera que é o sonho. Desejos e medos devoradores de homens arrepiam até a alma do sonhador.
Há pedaços de alguém por toda parte. Os pés conduzem ao final do corredor sem luz e lamacento. Há sangue pelo chão e uma figura imóvel no canto escuro do quarto. Os joelhos dobram-se e o que se vê é o reflexo de seu próprio rosto no corpo sem vida.
O grito mudo desperta do sono e traz de volta a existência real no mundo dos sentidos.
O dia começa a amanhecer novamente.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

pegando carona no fim do mundo...

Fiquei imaginando o que faria se o mundo acabasse amanhã... Lembrei da música do Paulinho Moska...

E vocês? O que fariam?

"Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?

Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia?
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia?

Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?

Corria pr'um shopping center
Ou para uma academia?
Pra se esquecer que não dá tempo
Pro tempo que já se perdia?

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?

Andava pelado na chuva?
Corria no meio da rua?
Entrava de roupa no mar?
Trepava sem camisinha?

Meu amor
O que você faria?
O que você faria?

Abria a porta do hospício?
Trancava a da delegacia?
Dinamitava o meu carro?
Parava o tráfego e ria?

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria..."

[O Último Dia]


domingo, 20 de janeiro de 2008

o fim do mundo...

Estou farta dos heróis, dos limpos, dos mártires. Cansei-me dos perfeitos, dos santos, dos puros. Cansei da maldita hipocrisia estampada nos perfis irretocáveis dos sem alma. Os perfeitos são os desalmados. Os humanos etiquetaram-se e penduraram-se em cabides. Há um corredor de almas enfileiradas à venda.
Queimaram as bandeiras e os ideais. Queimaram os líderes. Queimaram as bruxas e as parteiras. Decapitaram os verdadeiros guerreiros. Enterraram a honra.
Chamem os bombeiros, o exército, o papa! O mundo acabou. Restou apenas a velha placa na entrada, dizendo "aluga-se para rapazes".

(E pensar que eu ainda tinha esperanças de que tudo acabasse em vinho e boa música nos cantos escuros das velhas tabernas...)

sábado, 19 de janeiro de 2008

mesa para um...


Marie queimou as pontas dos dedos e chorou. Chorou de dor e chorou porque percebeu que estava sozinha, o que causava uma dor ainda maior que a da queimadura.

Em momentos assim, Marie desejava sentir-se amparada, acolhida, beijada...
Sentada na cozinha, via as lágrimas molhando o vestido.
A mesa estava posta para dois. Estava sempre posta para dois. Mas Marie sempre servia apenas uma taça de vinho e um prato.
Estava cansada de esperar pela companhia que nunca chegaria.
Era hora de seguir em frente.
Sozinha.



sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

ser mulher...

Poderia escrever algo lírico, usar a bendita licença poética, mas quer saber? Ser mulher é foda!
Na verdade temos algumas vantagens sobre a testosterona, como o orgasmo múltiplo, por exemplo. Nem que eu quisesse buscar palavras em algum dicionário venusiano daria para descrever a sensação.
Em compensação, os hormônios nos odeiam. Ovulamos, engravidamos, engordamos, encaramos a famosa TPM, precisamos estar sempre bonitas, cheirosas, sorrindo e de unhas feitas.
E a depilação? Ah, como dói arrancar os malditos pelinhos com aquela cera torturadora e quente.
Calcinha furada na hora da transa? Nem pensar! Verifique sempre a sua gaveta de lingerie para não ser pega de surpresa na sexta-feira às 9 da noite.
Flato ou eructação? Nem sonhando! Que tipo de mulher é você? Essas coisas não existem no reino feminino.
Se você é bonita, automaticamente pensam que é burra. Se for feia, é feia e ponto: ninguém conversa contigo pra saber se é inteligente.
Se você gosta de sexo e assume, é puta. Se gosta, mas finge que ignora, é puta e sonsa. Se se apaixona por um sujeito casado, é puta, sonsa e destruidora de lares.
Masturbação?! Não, não! Fale baixo para que seus pais não ouçam. Meninas não devem se masturbar.
Beber cerveja com os caras do trabalho? Pelo menos um deles vai achar que vai se dar bem contigo.
Palavrões? No máximo um discreto "porra" ou então o sutil "merda" (só se der uma topada com o dedão). Nunca, jamais, em hipótese alguma diga "caralho"...

Ainda há uma série de outras situações que me fazem desejar nascer homem na próxima encarnação, mas a de maior peso é, sem sombra de dúvida, mijar em pé (porque homem que é homem mija, não faz xixi). Seria maravilhoso não precisar esperar na fila do banheiro e poder aliviar a bexiga lotada em qualquer arvorezinha desavisada...

E antes que alguém pergunte: sim, estou na TPM... no auge dela... CARALHO!

eu & Anaïs... Anaïs & eu...

"Ela sempre enfurecia-se sozinha, irritava-se sozinha, suportava sozinha suas intensas convulsões emocionais..."

[Anaïs Nin]

raízes...

Continuei ali, parada, entorpecida. Senti que o céu havia ficado cinza e que a chuva se anunciava. Vi os carros passando numa velocidade irreal, o mundo parecia andar mais devagar.

As primeiras gotas de chuva começaram a cair, e tinham um peso absurdo. Cada gota, um golpe. As pálpebras fechavam-se a cada impacto, mas não conseguia me mover. A velha árvore que me servia de abrigo nos dias de sol secara: o outono levou embora suas folhas. Tentei buscar algum pensamento que justificasse aquele torpor ou que me fizesse mover, mas até os pensamentos fugiam de mim... Foi a primeira vez que consegui pensar em nada. O nada era um lugar interessante, um pouco intrigante, cercado de mistérios, mas tinha um "quê" de acolhedor. Era algo parecido com aquelas salas à meia luz dos filmes "noir", onde apenas o que se vê é a névoa dos cigarros em tons de cinza. O que havia lá? Não sei. Aquela imagem não mudou: não havia personagens interagindo, objetos, sons. Era apenas... nada, lugar algum, espaço vazio, silêncio absoluto. Senti medo de ficar presa dentro daquele pensamento, mas, por outro lado, aquele era o lugar ideal para me esconder. Ali ninguém me acharia.

De repente surge a voz de Etta James cantando Stormy Weather... perfeito... por que não posso ficar 5 minutos com o meu pensamento vazio? Ok. É perdoável, afinal de contas, era Etta James... Mas o "soundtrack" me fez voltar à realidade da pesada chuva e do corpo ensopado e dolorido. A velha árvora estava ali, tão imóvel quanto eu, talvez pensando nos dias de sol... talvez ela também tenha sido despertada de seu pensamento pela voz de Etta... E nós duas - eu e a árvore - continuamos olhando para o outro lado, para as enormes poças que formavam-se junto ao meio-fio. Resolvi, então, atravessar a rua. Logo no primeiro passo, pude ouvir o pensamento pesaroso de minha velha e desfolhada amiga: "Feliz é você que não tem raízes."

Ah, se ela soubesse...


quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

kaleidoscope...


Às vezes me procuro e encontro pequenos fragmentos de cartas,
fios de cabelo de todas as cores, anotações feitas em guardanapos de papel.
Não sei se sou eu ou elas, se sou todas ou apenas algumas.
Olho o espelho e vejo todos os rostos, todas as histórias.
O meu baú de cores está completo. Mas depois do terremoto tudo ficou cinza.
Onde foi mesmo que deixei meu caleidoscópio?


melancolia...

O despertar do pesadelo é a agonia viva dentro do corpo. O coração dispara e jatos de sangue quente pulsam alucinadamente pelas veias.
Os poros abriram-se e da pele brotaram palavras e sons. Não quero ouvir, não quero ler. Mas isso não pára, os poros parecem não querer fechar mais.
Quero estar muda... Não quero ouvir ninguém. Preciso chorar em paz. Preciso de um copo de morfina. Ou de algo que anestesie essa minha angústia.
A melancolia acaba de me engolir viva...


quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

apelidinhos carinhosos...

Todo mundo já teve apelidos carinhosos secretos, daqueles que deixariam qualquer um com vontade de enfiar a cabeça no primeiro buraco disponível se os amigos descobrissem...
Nessa minha incursão em solo terreno, tomei conhecimento de um monte deles, cada um mais cabeludo que o outro.
Ursinho, Mamãozinho, Tchururuco, Pataquinha, Cotoquinho, Lilicuta, Fofolete, Vlés-vlés-vlés (isso mesmo), Gioconda (hahaha! impagável), Nhenheninha (chega a ser difícl pronunciar), Zuzuzu, Lelecoleco, Patusco, Empadinha, Olineco... e por aí vai... (vejam bem, em momento algum disse que esses apelidos foram usados por mim ou aplicados a minha pessoa).
Alguém já se imaginou sendo chamado de "Empadinha"? Que os deuses lancem um raio sobre a minha cabeça se alguém achar isso romântico.
O mais engraçado é como esses nomes surgem. Conta-se que após uma manhã de sexo selvagem, o casal saiu do motel fazendo juras de amor eterno quando no meio da conversa o camarada vira para a mocinha e diz: "Putz, benzinho... Você é uma terrorista! Minha Bin Laden!"
O pior de tudo foi que ela gostou...

(Isso me fez lembrar um texto do Veríssimo...)


terça-feira, 15 de janeiro de 2008

faltas...

Surpreendente como algumas faltas são irremediáveis: falta de atitude, falta de amor, falta de palavras, falta de tempo.
A falta de educação é uma questão de ponto de vista, levando-se em consideração a falta (ou não) de discernimento de quem critica.

No meu caso, o que alguns chamariam de falta de educação é apenas indiferença. O tempo não passa, ele voa... (vide post anterior)

tempo...


Isso já foi postado por mim em 23 de julho de 2007. Hoje, por razões óbvias (para mim, claro), resolvi postá-lo novamente.

As pessoas perdem a noção do tempo, e com ela, a noção do espaço.
Há um tempo e um espaço dedicados a cada um; há sempre palavras e atitudes certas que preenchem as lacunas. Por falta de atenção - ou até mesmo por descaso - as pessoas fazem com que as atitudes virem pequenos animais alados que, após criarem asas, não conseguem mais voltar ao pequeno cativeiro que chamamos de ocasião...

Faz sentido? Sei lá... Foi um pensamento que me perturbou o sono e me fez querer escrever...
Como acho que palavras e atitudes precisam ser encaixadas nos momentos certos, preferi não perder a ocasião...


segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

tudo ao mesmo tempo agora...


Quero pecar mil vezes ao dia e sentir o gosto doce da transgressão inundar o corpo ao anoitecer. Quero sonhar com meus pecados e desejar cometê-los novamente. Quero a alma desfolhando-se em mil outras almas dentro de mim.
Quero prosa e poesia, quero noite e dia, quero frio, morno, quente. Quero o doce e o amargo da língua, quero os beijos mais loucos, quero muito, quero tudo, quero inteiro. Quero o pranto e o sorriso, a dor e o gozo.
Minha pobre alma deseja mais do que meu corpo pode suportar...

...



domingo, 13 de janeiro de 2008

indefinível...


Pisarei em nuvens com a suavidade de um anjo, com a leveza de quem não carrega pecados, com a pureza das virgens imaculadas.
Da mesma forma, descerei aos calabouços sujos e porões infestados de pragas, onde são aceitos apenas os marginalizados, os infames, as putas, os loucos.
Sou invisível, evaporável, indefinível.
Meu papel neste mundo?
Observar. Apenas.

(Preciso confessar que ler o "inclassificável" J.R. inspirou-me.)


outra noite insone...

Ela saiu do banho e vestiu apenas uma camisa dele – achava extremamente sexy. Deitou-se. Apesar do cansaço, não conseguia dormir.

Sua inquietação fez com que levantasse e buscasse a garrafa de Chateau Mont Redon que havia aberto antes do banho. Levou a garrafa e uma taça para o atelier - um pequeno espaço que tinha nos fundos do casarão, onde fazia suas esculturas.

Acendeu a luz e olhou o último trabalho, ainda inacabado. Sorriu satisfeita, pois teria algo a fazer naquela noite insone. Sentou-se no banco de carvalho e colocou a garrafa a seus pés. Precisaria de espaço sobre a bancada.

Após uma hora de trabalho, a porta do atelier abriu-se e ele surgiu, sonolento, apertando os olhos, incomodado com a luz fria. Perguntou se ela não tinha sono e se havia comido algo. Ela sorriu e balançou a cabeça, dizendo que não. Ele sempre se preocupava com seu bem-estar e era extremamente cuidadoso. No mesmo instante, virou-se e saiu do atelier. Retornou pouco depois com acepipes que havia preparado aquela noite, antes que ela chegasse.

Mais uma vez ela sorriu. Parou o trabalho e, entre goles de vinho e aperitivos, falou sobre seu dia. Ele sentou-se em outro banco, também de carvalho, um pouco mais baixo que o dela. Tomou seus pés e começou a massageá-los com um brilho conhecido nos olhos.

Ela continuava falando, mas tornava-se mais suave por conta do carinho. As mãos começaram lentamente a subir, mantendo os movimentos firmes, passando pelos joelhos e alcançando as coxas. Ela estava sentada bem à vontade, apenas com a camisa dele. Não havia lingerie alguma por baixo. E ele sabia que ela não usava lingerie à noite.

A proximidade entre as mãos dele e seu sexo era perturbadora. Ele olhava para seu rosto e continuava com as carícias, avançando cada vez mais, vendo que ela fechava os olhos e abria mais as pernas, facilitando a passagem de suas mãos.

Logo percebeu o quão excitada ela estava: molhada e receptiva. Esqueceu o cansaço e o dia frustrante e entregou-se totalmente ao toque dele.

Cuidadosamente, subiu um pouco mais a camisa, podendo assim visualizar melhor o sexo rosado. Usou o dois polegares para acariciá-la ali, suavemente, enquanto os outros dedos apoiavam-se e roçavam a virilha. Ela inclinou o tronco para trás, encostando numa velha cristaleira que havia naquele cômodo, onde guardava suas tintas e pincéis. Projetou o quadril na direção dele, abrindo mais as pernas, mordendo o lábio inferior. Os dedos deslizavam de forma gentil e cadenciada. Os finos pêlos de suas coxas estavam eriçados.

Avistou a taça de vinho ao pé do outro banco e, com uma das mãos, a apanhou. Ele não bebia, mas mesmo assim sorveu um pouco da bebida. Aproximou-se de seu sexo e lá depositou, aos poucos, o vinho que tinha na boca. Ela estremeceu e soltou um gemido tímido, passando as mãos pelos cabelos dele.

Naquele momento, a língua aliou-se aos dedos e também investiu contra o sexo da mulher. A boca morna e macia explorava cada centímetro da flor úmida que tinha entre as pernas, mordiscando e lambendo aqueles outros lábios dela, tão voluptuosos quanto os do rosto.

A intensidade daqueles beijos de língua e dedos que ele lhe proporcionava entre as coxas aumentava. Seus pés procuraram acariciá-lo em retribuição. Ele estava excitado, coberto apenas pelo fino tecido dos shorts do pijama. Com uma das mãos, sem que sua boca parasse de fazer-lhe a graça, puxou o short para o lado, mostrando o quanto desejava que ela avançasse nas carícias com seus pés macios e pequenos.

Logo ao primeiro toque, ele arrepiou-se e a penetrou com a língua, fazendo com que ela cravasse as unhas em seus ombros. Embrenhou os dedos nos cabelos dele e puxou sua cabeça de encontro ao seu corpo, para que aumentasse a intensidade de seu carinho. Já podia sentir o sexo em espasmos que eram o antegozo, apertando a língua macia, até, enfim, explodir em orgasmo naquela boca. E a língua não parava, estava faminto e sedento pela alma liquefeita que vinha de dentro dela, alucinado e com a respiração descompassada por causa do cheiro doce de sua mulher. Os pés... os pequenos pés ainda faziam-lhe a graça sublime de acariciar o membro que pulsava de desejo.

Quando sentiu que a carne quente parou de latejar em sua boca, afastou-se e levantou-se, pedindo apenas com o olhar para que ela também o fizesse. Acariciou-lhe os cabelos e com a mão em seu pescoço fez com que ela virasse de costas, ficando debruçada na bancada. Ainda em silêncio, penetrou o sexo ainda quente e crispado por trás, fazendo com que ela erguesse o tronco e gemesse mais alto. Ele arfava, aumentando o ritmo e a intensidade de suas investidas. As coxas dela queimavam e, encharcadas, eram cada vez mais convidativas e facilitavam ainda mais a penetração.

Num movimento arrebatado, apertou com toda a força as nádegas alvas de sua mulher, inclinando-se sobre ela e mordendo-lhe a nuca... Com a outra mão, apertou-lhe os seios e gemeu forte, deixando jorrar o leite morno dentro da alcova macia: a cada pulsação de seu sexo, despejava nela um pouco de sua alma. Eram cúmplices. Amantes. O resto do mundo não existia dentro daquele cômodo.

Permaneceram assim por alguns instantes, até que seus corações voltassem a bater no ritmo normal e que pudessem ter as pernas menos trêmulas. Apagaram a luz do atelier e foram juntos tomar banho, entre beijos, carinhos e palavras doces.

Ela, enfim, conseguiu dormir.


sábado, 12 de janeiro de 2008

untitled...



Não costumo entitular meus trabalhos... Baseado em fotografia encontrada na web.


quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

cartas...

Havia um tanto de imaginação em tudo ao redor. Personagens inanimados, lugares nunca antes visitados. Os restos de sanidade estavam espalhados pelo cômodo frio. Não lembrava como tinha ido parar lá. Tentava juntar as peças e montar uma imagem coerente, mas a coerência também perdeu-se de alguma forma. Perdeu-se com as certezas naquele céu de nuvens escuras. Lembrava apenas da imensidão cinza e azul antes de dormir.
O tempo passou desordenadamente e tornou ainda mais tênue a linha entre a imaginação e a realidade. O espaço entre o silêncio e o grito havia ficado repleto de sussurros. E os sussurros eram ensurdecedores...
As unhas brincavam nos pulsos já feridos. E o vermelho naquele mundo de gris tinha uma vida inigualável: era quente, a única sensação quente que o corpo conseguia desfrutar.
Um dia as feridas não sangraram mais. O que havia restado da sanidade também definhou. A vida havia abandonado de vez aquela morada. Não se ouvia mais sussurros ou gritos. Havia apenas o silêncio e as manchas vermelhas secas pelas paredes. Em cima da pequena escrivaninha, um monte de folhas escritas, cartas que não foram enviadas. E não seriam enviadas. Nunca mais.

Antes que qualquer um faça comentários melodramáticos ou venha perguntar se estou bem, vale dizer: sim, estou muito bem (thanks for asking) e não, eu não tenho tendências suicidas. É apenas mais um texto. Além do mais, suicide sucks. Mas talvez isso sirva pra fazer alguém repensar a vida...


terça-feira, 8 de janeiro de 2008

certeza...


certeza
(ê) sf (certo+eza) 1 Qualidade do que é certo. 2 Convicção do espírito de que uma coisa é tal qual ele a concebe.

O grande problema (o maior de todos) é a falta de certeza, a ausência da tal convicção. Por isso as pessoas deixam de lado instantes felizes, momentos que não podem ser perdidos.
Posso dizer que neste exato momento estou afogando-me em minhas certezas.


sábado, 5 de janeiro de 2008

Adèle, la sorcière...

A jovem Adèle estava fadada à solidão por pertencer a uma velha linhagem de bruxas. Suas irmãs, Astrid e Chantal, não importavam-se com o destino amargo e as noites de solidão que se seguiriam, mas a alma de Adèle chorava em silêncio quando olhava o calendário lunar.
- Vê a lua, Adèle? - perguntava Astrid.
- Sim.
- Acostuma-te com ela. Será tua única companhia fiel até que teu corpo liberte tua alma.
- Sim...

E assim Adèle passava os dias, os meses, os anos. Enquanto as irmãs fartavam-se de amantes, a jovem bruxa vagava pelas florestas escuras, maldizendo sua sorte à luz da lua.

E foi chorando que numa noite de lua cheia sentiu alguém aproximar-se. Assustada, Adèle quis correr, mas a mão do cavaleiro segurou firme seu braço. Olharam-se e souberam que o encontro havia mudado seus destinos aquela noite.

Sem que uma palavra fosse trocada, os lábios encontraram-se. Amaram-se como antigos amantes. E, em silêncio, seguiram seus caminhos.

Depois daquela noite, encontraram-se em todas as noites de lua cheia no mesmo lugar. E toda vez que o cavaleiro fazia menção de balbuciar palavras ou declarações de amor, Adèle tocava seus lábios com as pontas dos dedos, pedindo - apenas com o olhar - que ele nada dissesse, pois sabia que enquanto houvesse o silêncio e a ausência de juras de amor, teria sua companhia, mesmo que furtiva, nas noites de lua cheia. Até o dia em que seu corpo libertasse sua alma...


growing anger...

A maldita Isabeau tentava corromper Nina sem usar palavras. Estendia-lhe a mão e a guiava para a parte mais escura do pântano sem que ela notasse. Isabeau queria garantir o bem estar do filho do demônio que Nina carregava no ventre. Precisava cuidar para que ele não soubesse as verdadeiras intenções de Nina... e dela própria.
O ódio crescente fazia Nina desejar que o rebento nascesse tão logo quanto fosse possível. E Isabeau, a observadora e fria Isabeau, tinha seus próprios planos sobre os destinos de Nina e do guerreiro que estava por nascer.


da sedução dos anjos...

"Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.

Puxa-o só para dentro de casa e mete-lhe
a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
Para que do choque no fim te não caia.

Exorta-o a que agite bem o cú
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue –

Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes."

Bertolt Brecht


quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Clementine, sweet Clementine...

Clementine era feita de açúcar, diziam todos. Olhava pela janela o dia inteiro, com o olhar sonhador de quem esperava uma carruagem alada aparecer a qualquer instante e que dela saísse um príncipe encantado. Era a filha mais doce, a mais recatada, a mais sonhadora. O que ninguém sabia era que Clementine, como toda mulher, esperava mesmo era que o príncipe encantado tivesse péssimos modos e arrancasse-lhe a roupa a dentadas...


quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

the romanian prince...

"I am the fever, the fury of old times spirits.
I am the one who might fight 'till the last breath, 'till the last drop of warm red blood gets spilled.
I am Goran Popescu."

Oh yeah... And i'm Joana D'arc.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Eternal Sunshine of the Spotless Mind...

Clementine: Joely?
Joel: Yeah, Tangerine?
Clementine: Am I ugly?
Joel: Uh-uh.
Clementine: When I was a kid, I thought I was. I can't believe I'm crying already. Sometimes I think people don't understand how lonely it is to be a kid, like you don't matter. So, I'm eight, and I have these toys, these dolls. My favorite is this ugly girl doll who I call Clementine, and I keep yelling at her, "You can't be ugly! Be pretty!" It's weird, like if I can transform her, I would magically change, too.
Joel: You're pretty.
Clementine: Joely, don't ever leave me.
joel: You're pretty... you're pretty... pretty...

máximas para o ano que se inicia...

"Liberdade é obediência às leis que a pessoa estabeleceu para si própria."
(Rousseau)

"É a possibilidade que me faz continuar e não a certeza. Uma espécie de aposta da minha parte. E embora me possam chamar sonhadora, louca ou qualquer outra coisa, acredito que tudo é possível."
(Fênix Faustine) (???)

"Seremos interrompidos antes de terminar. Portanto, devemos fazer da interrupção um caminho novo. Da queda um passo de dança. Do medo uma escada. Do sonho uma ponte. Da procura um encontro."
(Fernando Pessoa... sempre Fernando Pessoa...)

"A verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até num cárcere, e a estar sozinhos até no meio da multidão."
(Massimo Bontempelli)

"Não espere nunca que eu seja fiel a qualidades que não tenho. Você pode contar com as que tenho, porque nessas não falharei."
(Miguel Sousa) - sábias palavras, mon ami... sábias palavras...

"Entre o que acontece comigo e minha reação ao que acontece comigo, há um espaço. Neste espaço está a minha capacidade em escolher minhas respostas e definir meu destino."
(Stephen Coley)