EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Clarisse - Parte I

Clarisse conheceu Yves em um café, quando sua vida parecia estar voltando ao normal após perder o bebê.

A gravidez a fizera afastar-se dos negócios da família. Desde muito moça, pelo fato de sua mãe não ter parido um filho varão, Clarisse acompanhou seu pai às reuniões em seus clubes noturnos, destilarias e até em prostíbulos que mantinha. Foi criada e educada (muito bem educada) para administrar os negócios caso o pai viesse a falecer. Mas como ele mesmo dizia, não havia como envolver-se com tudo aquilo sem sujar as mãos. E, pelo curso natural das coisas, Clarisse aprendeu a manejar armas de fogo com uma destreza que nem todos os capangas do velho possuiam. Precisava manter-se viva, pois Salvatore havia colecionado incontáveis inimigos. Qualquer pessoa daquela família seria o alvo perfeito para atingi-lo.

Acabou envolvendo-se com o sócio de seu pai, um homem frio e sem escrúpulos que a cortejava incessantemente desde que a conhecera. Era sedutor e irônico, mas sua parte nos negócios incluía o trabalho sujo - que ele fazia com um largo sorriso no rosto. Clarisse já havia presenciado alguns acertos de contas e outras negociações feitas por Vincenzo - ou Vince, como era chamado pelos mais íntimos. Não concordava com seus métodos nada ortodoxos, mas estava, na maioria das vezes, ao seu lado.

Em seu leito de morte, o velho Salvatore chamou Vince e Clarisse e deixou com o jovem gangster a incumbência de tomar conta dos negócios ao lado da filha. Isso incluía proteger Clarisse a qualquer custo, contra tudo e contra todos. E pediu que a filha desse a Vincenzo um filho homem.

Pouco tempo depois da partida de Salvatore, Clarisse engravidara. Por medida de precaução, Vince a afastara dos negócios, pois sua saúde estava frágil e queria que ela se ocupasse das coisas que as mulheres se ocupam nessa fase, o que permitiu que ele levasse o negócio livremente a pulso de ferro. Mas a gravidez de Clarisse não vingou, o que a abateu profundamente por algum tempo. Sentiu-se incapaz de atender o último desejo de seu pai. Procurou, então, ocupar-se por algum tempo de outras atividades.

Mas sua vida mudou completamente ao entrar no café que ficava a apenas algumas quadras do lugar que Vincenzo chamava de escritório. O destino de Clarisse estava sendo selado ali, exatamente naquele instante.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Crônica natalina

Domingo, 20 de dezembro: a pequena "restauração" da sala de estar é finalmente concluída, após duas ou três semanas de trabalho árduo dos pedreiros de casa mesmo - nós e o noivo de minha irmã. Percebo que a minha parte do trabalho não terá o resultado esperado - chão de tacos soltos sempre dá um trabalho miserável. Aquela bendita cola que promete resultados mágicos não parece querer dar jeito na situação. Tudo bem. Pelo menos tudo ficará bem para o Natal. Faltam apenas alguns detalhes - limpeza, pendurar o quadro novo e esperar a loja entregar o sofá novo e a mesinha de centro.
Segunda, 21 de dezembro: começa a fase limpeza. Estamos todos quebrados e imundos. Cada um faz um pouco da etapa fatídica. Resolvemos ir à tal rua dos lustres para comprar um abajour que combine com o novo clima contemporâneo da sala de estar com uma parede vermelha. É avant garde. Mamãe entra em todas as lojas do quarteirão e nos faz suar como porcos ao sol de 40°. Acaba escolhendo um modelo da última loja em que entramos, que por acaso tínhamos sugerido no começo de nossa incursão que fosse a primeira. Tudo pela nova sala.
Terça, dia 22 de dezembro: vou trabalhar e ligo a cada 30 minutos para saber se entregaram o sofá. Nada. Nem sinal. Resolvo ligar para a loja. O vendedor me passa o telefone do galpão. A simpática Andréia me atende, dizendo que a entrega será feita apenas no dia 23. Podemos sair, então, para finalizar nossas compras natalinas. Encaramos o shopping desesperadoramente lotado. Tudo bem. Temos crianças felizes. Nossos pés é que nos matam. Fome e sede também. A praça de alimentação mais se assemelha a uma praça de guerra. Melhor não arriscar. Resolvemos tomar uma cerveja no boteco pé sujo da esquina. O China - o atendente mal humorado mas gente boa - nos serve alguns pastéis e meia dúzia de cervejas. Lavo a minha alma. Tentamos não olhar o bueiro aberto ao lado da mesa - se os pastéis estão ótimos, para que estragar o clima?
Quarta, dia 23 de dezembro: chegou o dia. A ansiedade por ver a sala nova totalmente montada nos corrói, quase não dormimos de ansiedade. O dia passa. A tarde chega. Nada. O interfone não toca. Ligo novamente para Andréia. O telefone não atende. Inferno astral. Sete, oito horas da noite. Conformamo-nos com o sofá velho mesmo.
Quinta, dia 24 de dezembro, meia-noite: meu celular - que não estava no modo silencioso - grita ao meu ouvido, me despertando do sono bom. Eu atendo muito injuriada e vejo que é um número com identificação bloqueada. Isso me irrita profundamente, principalmente no meio da noite. Digo uma meia dúzia de "alôs" e a pessoa do outro lado se limita a me ouvir. Isso me irrita mais ainda. Algumas pessoas não perdem certos hábitos. Ex-namorados e velhos vícios. Por isso - entre outras coisas - tornam-se "ex". Custo a dormir novamente. Está calor. Penso novamente no sofá. Que se dane, ainda temos o bom e velho "tobogã". O sono vem novamente. Perco-me em algum sonho estranho. Ao longe, uma campainha vai tocando. O som insistente daquele som semelhante ao meu interfone me desperta. Ouço agora o telefone tocando. Minha irmã atende. Não é um sonho. Olho o relógio: duas horas da manhã. Meu primeiro pensamento é minha avó. Telefonemas de madrugada nunca são boas notícias. Minha irmã entra no quarto de meus pais. Bate um desespero pensando que realmente algo de ruim aconteceu. Ela me olha e diz que o sofá chegou. Vou até a janela e vejo o caminhão parado em frente ao prédio. Realmente não é um sonho - está mais para pesadelo. Visto-me de péssimo humor e desço os três andares - de escada! - para abrir a portaria. Dou meia dúzia de broncas nos entregadores - coitados - que estavam fazendo entregas desde as sete da manhã do dia anterior. Compadeço-me e resolvo ser simpática. Precisamos tomar cuidado para a descompensada da síndica não chamar a polícia por causa do movimento suspeito às 2:10 da manhã. Não posso reclamar, pois eu mesma chamaria. Ninguém acreditaria que um sofá pudesse ser entregue às duas da manhã na véspera de Natal! Não deu outra: enquanto os rapazes colocavam o sofá novinho em folha na minha sala, o motorista do caminhão era surpreendido por uma viatura com dois policiais militares. Sorte a dele que eu estava de prontidão na janela e acenei aos homens da lei, sinalizando que estava tudo bem.
2:40 - eles vão embora e nós continuamos na sala, namorando o sofá novo, como um bando de bocós. Meu pai resolve acender o abajour para testar a iluminação. Percebo que somos uns desocupados. Voltamos, então, todos para as respectivas camas, num frisson para que o dia logo amanhecesse e pudéssemos terminar a decoração. Adormeço uma hora depois, após relatar o ocorrido numa ligação interurbana ao meu namorado.
Às seis da manhã estou novamente de pé, pensando que a sala era o menor dos meus problemas naquele instante. Resolvo sair e me livrar do peso que ainda me incomodava e tirava meu sono, para que pudesse respirar mais facilmente e pensar em começar realmente o ano novo de alma lavada. E sala nova, claro.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

para servir de inspiração...

E eis que o lobo - enorme, grave, cruel - uivou dentro da boca da mocinha - no fundo, uma cadela sem escrúpulos que sucumbiria aos seus desejos mais imorais.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

meu gigante

Amo um gigante de mãos grandes e olhos verdes incandescentes. Amo de amor espontâneo, livre, imensurável. Amo sem mágoa ou ressentimento, sem medo, sem amargura. Amo, simplesmente. Inteiro.
Ele é a força, a voz, o coração: ele é o amor em mim.



great post...

http://e-agora-jose.blogspot.com/2009/12/accept-losing-more-than-you-ever-had.html

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Clarisse


Olhou o papel e suspirou profundamente, com pesar. Dobrou a pequena folha e a colocou de volta dentro do envelope, fechando em seguida.
- Quando? - perguntou ao homem sentado do outro lado da mesa.
Ele arregaçou a manga esquerda do paletó escuro e olhou longamente para o relógio, voltando, então, os olhos ao rosto da mulher. A marca fina que se formava ao lado da boca simulava um sorriso que respondia a sua pergunta. Mesmo por trás da fumaça do charuto e da luz fraca, era possível ver o prazer cruel estampado em seus olhos, traçando finas linhas vermelhas que se escondiam além do que era possível enxergar e compreender. O silêncio da sala era apenas entrecortado pelo som de fagulhas quando o charuto era tragado e pela fumaça lançada ao ar logo em seguida.
Levantou-se e passou as mãos pelo corpo, alisando a saia bem cortada. Calçou o sapato de salto alto e se dirigiu ao espelho rachado que pendia no canto da sala. Tirou de uma pequena necessaire um batom vermelho que retocou tristemente. Viu-se cansada e mais velha, fechando os olhos para tentar achar um pouco da coragem que ainda lhe restava para seguir adiante ou para mudar completamente a história. Na verdade, tudo não passava de uma escolha.
Perdida dentro de si mesma e encarando o vazio dos olhos pintados, sentiu as mãos dele em sua cintura e o hálito amadeirado do tabaco cubano em seu pescoço. Com os corpos juntos, ele a balançou suavemente para os lados, como que dançando. Seu reflexo era sarcástico.
Sem encará-lo, dirigiu-se à mesa e apanhou a pistola brilhante que repousava sobre ela. Verificou o cartucho e seguiu em direção à porta, sem olhar para trás. Antes de abri-la, sentiu a mão dele agarrar seu pulso e puxá-la de volta. Ele ainda sorria com o mesmo ar sarcástico. Passou os dedos em seus lábios com força, esfregando e borrando o vermelho do batom.
- Você não vai precisar disso.
Beijou-a em seguida.
- Haja o que houver, não chore, não hesite, não se arrependa. Não me decepcione.
Com os olhos queimando, saiu da sala. Caminhou lentamente pelo corredor comprido e escuro que levava à outra sala. Seus passos eram lentos e pesados, e desejava que o tempo parasse para que pudesse encontrar outra saída. O som do sapato de salto ecoava cruelmente pelo corredor.
 A mão apertou a maçaneta com força antes de girá-la. A única diferença entre as duas salas era a falta de fumaça nessa última, e o fato de o homem ali estar amarrado à uma cadeira, amordaçado e vendado. O barulho da porta fechando atrás de suas costas era uma sentença da qual não poderia recorrer. Com o barulho, o homem agitou-se, tentando reagir a algo que ele não compreendia.
Sentindo uma lágrima correr, respirou fundo e foi para junto do homem, que imediatamente reconheceu aquele perfume. Agitou-se ainda mais.
Deixando a arma sobre a mesa, tirou-lhe a venda dos olhos e colocou-se de joelhos à sua frente. Ele tentava falar, mas a mordaça o impedia. Seus olhos desesperados clamavam por alguma explicação. Ela apenas repousou a cabeça em suas pernas e chorou em silêncio.
Após instantes intermináveis de pesar, levantou-se novamente e apanhou a arma sobre a mesa.
- Perdoe-me. É melhor que seja eu a fazer isso.
Ele agora chorava, sem compreender o que acontecia.
Ela se sentou em seu colo e, com a arma na mão, retirou-lhe a mordaça.
- Não diga nada, por favor.
- Mas...
- Sempre amarei você.
- Meu D...
Antes que pudesse terminar a frase, ela o beijou - um beijo passional, cheio de culpa e remorso, cheio de amor.
Levantou-se novamente, abandonando o colo do amante, que permaneceu de olhos fechados, ainda guardando o gosto daquela última recordação.
Atirou. Rápido. Sem dor. Morte.
Destruída, caminhou de volta pelo corredor escuro. Estava morta também.
De volta à sala, foi recebida pelo imutável sorriso irônico do outro homem, que a abraçou sem se importar com a blusa de seda branca respingada de sangue.
- Essa é a minha garota... Sorria, meu bem. Você conseguiu. Eu amo você.
- Ama?
- Claro que sim. Você sabe disso. Por isso ele foi embora. Ele estava deixando você doente. Você se sentirá bem melhor, você vai ver.
Clarisse foi de encontro ao espelho. Viu-se suja, morta, um farrapo do que havia sido.
- Você realmente me ama?
- Sim.
- Morreria por mim?
- Claro.
- Ficaria miserável se eu partisse?
- Irremediavelmente miserável.
- Vai me amar e ficar comigo para sempre?
- Para sempre.
- Então viva com isso para sempre.
Clarisse acertou  a própria cabeça, deixando vestígios de vermelho por toda parte - resto de batom no rosto e resto de vida nas paredes.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Poor Elise

Primeiro, bateu a porta do carro. Sem olhar para trás, Elise bateu a porta de casa. Deixou tudo do lado de fora. Juntou seus julgamentos, preconceitos e conservadorismos e preferiu ficar só - ela, os livros e seus julgamentos tortos.
Que se fodessem os ideais: no fundo, eram todos iguais.
Pobre Elise, o que será dela?

madrugada

Ele adorava a sujeira daquele relacionamento.

Enquanto os homens comuns idealizavam suas companheiras como mulheres angelicais e comportadas - pois as indecentes serviriam-lhes apenas como amantes - ele havia idealizado algo diferente, e descoberto que ainda não tinha conseguido imaginar todas as possibilidades. Acreditava que alguma força divina - ou não - a pusera em seu caminho. E descobriu, então, que seu ideal de companheira era diferente, era algo que pairava entre delicadeza e sujeira, inferno e paraíso. Porque ela fazia-se puta quando queria seduzi-lo, era indecente até a última fibra de seu corpo, tinha a língua e o sexo em fogo.

Entraram às duas da manhã na sala reservada do Terminal Rodoviário. Um senhor cochilava perto da máquina de café. A meia luz e o silêncio da saleta eram um convite ao sono àquela hora. Sentaram-se de frente à tela que exibia um filme antigo qualquer. Sentiu-se entediada. Abriu uma revista e passou rapidamente as páginas. Ele abriu um livro que ela havia comprado para ele dias antes - mais um livro de poesias eróticas. Ela sabia exatamente como excitá-lo. Olhou para ele sorrindo de lado, vendo seu interesse na leitura. Buscou então a mão que não segurava o livro e levou à boca, introduzindo o polegar entre os lábios e acarinhando a ponta do dedo com a língua quente. Ele fechou os olhos - como sempre fazia quando algo o excitava - e olhou em seguida para o homem que dormia. Seu sono era profundo e sonoro. A mão dela escorregou para o meio das pernas dele, sentindo o quanto ele gostava da situação - seu rosto tornava-se grave, olhos fechados, como em uma espécie de transe. Ela parou, então, sorrindo mais uma vez, desafiadora. E os olhos dele faiscaram, significando que não havia mais como voltar atrás.

A bagagem de mão foi colocada estrategicamente em seu colo. Sentia o sexo queimando e molhando o meio das coxas que se apertavam cada vez que ele pulsava em sua mão. As luzes da sala e da plataforma começaram a piscar intermitentemente, anunciando algum problema elétrico. O movimento dos funcionários na plataforma os excitava ainda mais. E valendo-se da luz que falhava, ele buscou tocá-la para provocá-la ainda mais. E a luz apagou-se definitivamente.

Imediatamente ela se levantou, tateando o caminho para o pequeno toalete da sala reservada. Sem hesitar, ele pôs-se de pé, seguindo-a no escuro. Fecharam a porta e se apertaram no pequeno lavabo, feito loucos em silêncio. Com a saia levantada, foi suspensa e prensada contra a parede, sentindo o desespero rijo de encontro à sua virilha. Ela beijou-lhe a boca, sacana, mordendo os lábios e lambendo o outro rosto, exatamente do jeito que o alucinava. De repente, acertou-lhe o rosto com um tapa. Não conseguia ver os olhos dele, que provavelmente estariam brilhando. Sentiu apenas uma mão apertando-lhe o pescoço enquanto seu sexo era invadido de uma vez só com um pequeno rosnar. Estavam, então, como queriam. Ele lançava-se para dentro dela com violência, pressionando os dedos em volta do pescoço branco e subindo em direção aos cabelos, que agarrava com força, forçando o corpo dela para baixo, de modo que engolisse inteiro o seu sexo que pulsava desesperadamente. Fodiam feito cães, desesperados de amor. Enquanto batia sua virilha contra a dela cada vez mais rápido, o corpo suspenso estremeceu e amoleceu, fazendo com que ele sentisse uma onda quente envolver sua porção latejante e molhar suas pernas. E com o pulsar acelerado, deixou que o corpo dela escorregasse ao chão e ordenou: "Engole."

A boca macia o envolveu tão intensamente que mal pôde conter que a explosão vazasse da boca ao seio que fugia da blusa, palpitante e suado.

As luzes acenderam-se, cúmplices. No toalete, cheiro de sexo e vestígios molhados de amor pelo chão.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Manhãs


Era manhã de setembro
e
ela me beijava o membro
.
Aviões e nuvens passavam
coros negros rebramiam
ela me beijava o membro
.
O meu tempo de menino
o meu tempo ainda futuro
cruzados floriam junto
.
Ela me beijava o membro
.
Um passarinho cantava,
bem dentro da árvore, dentro
da terra, de mim, da morte
.
Morte e primavera em rama
disputavam-se na água clara
água que dobrava a sede
.
Ela me beijava o membro
.
Tudo que eu tivera sido
quanto me fora defeso
já não formava sentido
.
Somente a rosa crispada
o talo ardente, uma flama
aquele êxtase na grama
.
Ela a me beijar o membro
.
Dos beijos era o mais casto
na pureza despojada
que é própria das coisas dadas
.
Nem era preito de escrava
enrodilhada na sombra
mas presente de rainha
.
tornando-se coisa minha
circulando-me no sangue
e doce e lento e erradio
.
como beijava uma santa
no mais divino tranporte
e num solene arrepio
.
beijava beijava o membro
.
Pensando nos outros homens
eu tinha pena de todos
aprisionados no mundo
.
Meu império se estendia
por toda a praia deserta
e a cada sentido alerta
.
Ela me beijava o membro
.
O capítulo do ser
o mistério de existir
o desencontro de amar
.
eram tudo ondas caladas
morrendo num cais longíquo
e uma cidade se erguia
.
radiante de pedrarias
e de ódios apaziguados
e o espasmo vinha na brisa
.
Para consigo furtar-me
se antes não me desfolhava
como um cabelo se alisa
.
e me tornava disperso
todo em círculos concentrícos
na fumaça do universo
.
Beijava o membro
beijava
e se morria beijando
a renascer em setembro.
.
Carlos Drummond de Andrade
.
.
Era primeira noite de janeiro
e
ela me beijava inteiro
.

pessoas na praia cantavam
coros embriagados celebravam
ela me beijava o membro
.
O meu tempo perdido
o meu tempo ainda futuro
cruzados em um só rumo
.
Ela me beijava o membro
.
Uma esfinge cantava
bem dentro do peito
dentro, do coração, de mim, da morte
.
Vida e morte em trama
regados em nossas almas
água que aumenta a sede
.
Ela me beijava o membro
.
Tudo que eu tivera sido
quando eu ainda não era inteiro
não formava sentido
.
Somente a rosa crispada
e eu beija-flor ardente em chama
o êxtase na cama
.
Eu a beijá-la por dentro
.
Dos beijos era o mais íntimo
Beijava, beijava com sentimento
.
Pensando nos outros homens
eu os odiava e tinha pena de todos
sombras e testemunhas de tudo
.
Meu império se estendia
por toda a cidade deserta
deuses em uma ilha
.
Ela me beijava o membro
.
O prazer de viver
o mistério de amar
o encontro amoroso de gozar
.
Eram todos, ondas caladas
morrendo num caís distante
e algo se erguia
.
salvo da letargia
e de alma apaziguada
espasmos com o beijo da brisa
.
Furtando-me do sono
desfolhando-me o corpo
como um animal sua sede sacia
.
me tornava rijo
ao som do seu litígio
me perdia no universo
.
Beijava o membro beijava, e me matava beijando
.
.
José Rodolfo Klimek Depetris Machado

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Pablo Neruda

"Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando."


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

desconforto

Sinto-me literalmente estranha com essa água morna e parada que chega até os joelhos, como se o letárgico brejo tragasse, aos poucos, esse meu demônio.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

em silêncio

Ele irrompeu sala adentro, como um tornado, e fez com que a porta impedisse que qualquer um entrasse naquele momento. Nada falou; beijou-lhe a boca como um selvagem e abriu as calças, já buscando o caminho entre as pernas cobertas pelo vestido.
Ouviam os outros trabalhadores passando pelo corredor, abrindo a porta ao lado e narrando assuntos que autoafirmavam seus postos de macho - sua virilidade.
Lambiam-se ofegantes, línguas desesperadas e sexos famintos por uma foda rápida e intensa, engolindo seus gemidos com saliva e arfares mudos. Ele encontrou um sexo que tremeu à primeira investida. Sorriu. Uma música abafava o som dos beijos e as batidas da mesa contra a parede, ao ritmo da batida de um corpo contra o outro.
As mãos grandes seguravam-lhe pelo quadril, indo e vindo forte e fundo, causando-lhe uma dor que se misturava com um quase orgasmo cadenciado, crescente, transbordante.
E enquanto ela quase morria com ele se desfazendo entre suas coxas, barbaridades eram rosnadas entre dentes... até que a pequena morte fizesse fluir o que ainda restava de suas almas.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Mais uma dose

Mais uma dose. Ele tossia compulsivamente enquanto ela gargalhava no canto urinado do quarto imundo. Aqueles olhos que reviravam eram lindos e menos brilhantes naquele momento. Olhos de cor estranha, não sabia se pela sua vertigem ou se pela loucura passageira que a assolava. Era linda quando estava louca, quando estava alta, quando estava bicho.
Arrastou-se para o seu lado e passou o braço em volta dos seus ombros, buscando algo de consolo e calor. Tudo era frio e cinza e aquela gargalhada era a única chama a aquecer o seu mundo. Mas ela parou. Olhou para ele e o mandou para o inferno. Afastou-se. Começou a gargalhar novamente.
Com a boca seca, ele se dirigiu novamente para perto dela, mas ela novamente o hostilizou, vomitando agruras e estranheza. Mostrou-lhe, então, a agulha. Ela sorriu apática, estendendo-lhe o braço. A euforia injetável pulsou forte na veia, espalhando-se em espasmo elétrico por todo o corpo, até o espumar da boca.
Ela era tão linda quando estava morta...

O gato

Ela se lavou até sentir a pele arder embaixo d'água. A visita dele sempre a perturbava ao pé da escada.

Chegava no meio da noite, sorrateiro feito um gato, e acertava sua janela com aquelas malditas pedrinhas que tilintavam aqui e ali e a despertavam de um quase sono, de um quase sonho. Então descia trôpega e descabelada, enrolada em uma camisa qualquer, vestida apenas de pele e pelos por baixo. Beijavam-se como se tivessem acabado de conversar, como se ele sempre tivesse estado ali. E a colocava de rosto grudado na parede para balbuciar desejos inconfessáveis e amores reprimidos. Rasgava sua carne e lambia seus ouvidos. E a amava por vinte minutos e partia novamente. Simplesmente partia.

Ela voltava e esfregava o corpo embaixo d'água para fazer o amor diluir e escorrer ralo abaixo.

A visita dele sempre a perturbava ao pé da escada.

sábado, 21 de novembro de 2009

Há dias que a situação não anda lá grande coisa. Temos um impasse, um enorme impasse. Sinto que vou explodir. Às vezes parece que as coisas só funcionam em uma via, quando na verdade precisariam funcionar em duas. Entendo perfeitamente que certas coisas incomodem (num grau altíssimo) o outro, mas desejo que haja uma compreensão absurda quando outras coisas (e pessoas) me incomodarem também. E algumas me incomodam terrivelmente, principalmente quando os hormônios estão em ebulição. Como a Marilda aí embaixo (a da tirinha), eu também fiquei louca. Também descobri que sou histérica, possessiva, descontrolada, ciumenta, insegura, inflamada, vil, passional, estabanada, controladora, desmiolada e linguaruda. Tirei o rancorosa, porque isso, definitivamente, não sou.
Queria quebrar todos os seus discos (tudo era mais fácil na era do vinil...), rasgar suas roupas (só as camisas, porque jeans dá trabalho), rabiscar seus livros (só os seus, os nossos não contam), amassar o seu carro (acho que tem uma música da Calcanhoto que fala uns lances assim), dizer que não te amo. Eu seria capaz disso tudo, sim (eu acho). Mas depois bateria aquele puta arrependimento ao olhar os destroços e ver que te magoei. Aí eu desmonto e começo a chorar e peço desculpas. Me desfaço. O que isso tem de são? Nada. E quem disse que eu sou uma pessoa sã? Acredito que ninguém tenha se arriscado.
Enquanto eu ainda tiver esses rompantes, está tudo bem. O grande problema será se eu deixar de tê-los (isso pode significar que eu deixei de me importar...)

Pronto. Já me sinto bem melhor.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

a shitload of trouble


frases interessantes

Andei fazendo umas pesquisas e acabei me deparando com um site com inúmeras estampas bem espirituosas para camisetas. Algumas frases interessantes encontradas:

"I like you. I'll kill you last." - Gostei de você. Vou te matar por último.

"Of course i love you. Now get me a beer." - Claro que eu te amo. Agora me traz uma cerveja.

"Exactly how much fun can i have before i go to hell?" - Exatamente quanto eu posso me divertir antes de ir pro inferno?


"Serial killer o board." - Assassino em série a bordo.

"Get off!" - Se manda!


Uma de cada pra mim, por favor...


no limbo da memória

Às vezes ficam restos de algumas coisas pelo caminho - pelo chão do quarto, pelo sofá da sala, pelo armário do banheiro. E não são restos ou rastros de outros - são rastros de nós mesmos. Simplesmente porque fazemos questão de esquecer, mas esquecer também faz parte de lembrar. E lembrar de algumas coisas significa esquecer de outras, uma confusão de memória fundida entre lembrança e esquecimento, feito capuccino. E, assim como o capuccino, há um terceiro elemento, um lugar neutro e aglutinante. É o limbo onde se escondem os vestígios da gente. E nesse monte de bagulhos revirados eu preciso pescar algumas lembranças, mas é uma procura tão intensa que chega a ser cansativa. É como procurar um soutien que você sabe que perdeu dentro do seu próprio quarto e que não consegue mais achar - o que chega a ser quase absurdo. É como esquecer um fato íntimo que só foi confiado a você e lembrar de uma miniatura de porquinho rosa que vinha de brinde numa coleção de fazendinha de uma marca de margarina (ou seria leite?) há trinta anos. É como esquecer de quase tudo que houve entre os onze e os quinze anos porque, no fundo, você queria que muita coisa não tivesse acontecido - você sabe que aconteceu mas não lembra como ou quando aconteceu exatamente. É como precisar juntar sempre os pedaços para me ver inteira de novo.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

ser mulher de escritor

Ser mulher de escritor é foda. É foda porque as mulheres se derretem por palavras bonitas. E poesia, então? Nem se fala. Pior ainda quando ele escreve poesia erótica. Aí, lascou de vez.
Totalmente diferente é uma mulher escrever contos eróticos ou poesia erótica. Os leitores do sexo masculino podem até se excitar, mas geralmente não é algo manifesto. Quando é, costuma ser contido ou tão tosco que a gente pode até achar graça. Além do mais, a diferença entre erótico e pornográfico é grande. E os homens tendem mais para a segunda opção.
O problema das mulheres é que elas se encantam com uma facilidade inacreditável. Um homem sensível, que manifeste seus sentimentos através da escrita é algo raro. Não são simples visões do mundo nem utopias quaisquer. São sentimentos. E eu digo isso porque me apaixonei por José lendo o que ele escrevia. E confesso que ele me fez chorar inúmeras vezes. Eu não sou a mulher mais sensível ou delicada do mundo, o que significa que, para alguém realmente me tocar com palavras, tem que ser muito bom. E nunca havíamos nos visto ou sequer trocado uma palavra. Simplesmente aconteceu. Do nada. De repente. Quando dei por mim estava entrando em contato com ele, mostrando o que eu escrevia, inventando motivos para trocarmos mensagens. E logo depois viajei 890 km e me vi em um pequeno terminal rodoviário na longínqua "Macondo", em frente a um viking de tranças e 1,80m de altura. Tudo isso aconteceu há quase dois anos e hoje ele ainda sorri toda vez que me beija e me apresenta como sua mulher. Costumo dizer que somos bichos, e que, como tais, reconhecemos nossos pares pelo cheiro. Escrevemos juntos, lemos juntos, corrigimos os textos do outro. É a cumplicidade da liberdade que proporcionamos e sentimos. Porque não há razões ou explicações para nos amarmos assim. Há o amor, simplesmente.
Ainda assim, com toda essa liberdade e certeza de que há muito mais do que encantamento entre nós, eu volto a afirmar: ser mulher de escritor é foda.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

SODOMA

Há algum tempo encontrei
Entre dois alvos montes o caminho
Escondido, escuro, úmido e quente
Teu esconderijo íntimo
.
Tu te fizestes de rogada
Proclamando que os portões jazeriam selados
Me convidando paro o pecado natural
Jamais no entanto desisti de tomá-la
.
Ao velar teu sono eu a sitiava
E com dedos sôfregos abria caminho
Em êxtase cobria de beijos tuas nádegas
Propondo uma trégua para teus medos
Alimentando qual a uma cadela teus instintos
.
No sonho tu se desfazias e gemendo
Arcava-se e tremia em terremoto
E a última vergonha era ameaçada
.
Derrubei os pilares morais e o pudor caiu por terra
Lidas e novas guerras nos pertencem agora
Ambos tomados de lascívia somos e uma nova era
Sem muralhas, nosso gozo alcança a glória
.
Hoje faço-te minha por inteiro
Insultando a quem quer que se ofenda
Com nosso sexo, canto, poemas
Ejaculando fogo-branco, oferenda
Ungido por mim será para sempre teu corpo
.
.
POSTADO POR E AGORA JOSÉ?

resposta à Sodoma


Deitada em lençóis nebulosos
dissolvo-me vestida de pele
ao calor da noite e do corpo
coberta de sonhos de dedos submersos.

Segredos sonâmbulos confesso
entre gemidos e arfares e desejos
que a boca reprime e o corpo almeja
de olhos fechados, inundando teus dedos.

E a fúria inconsciente lançada à carne
aberta e deslizante ao roçar de teus pelos
lançando à pira a friez de meus medos
oferenda lasciva de meus montes de mármore.

E teu hálito quente a me acalmar os ouvidos
sentindo o abandono sutil de teus dedos
em único lance inteiro me invades
enchendo a carne crispada de gritos
e delírios de dor e prazer instaurados
onde o amor se desfaz em aquosos gemidos
entre os montes que guardam os portões do inferno
alcova glútea a assaltar teus sentidos
vertendo veneno em espuma - gozo em versos.

sábado, 7 de novembro de 2009

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

fome

Sinto fome. Sinto fome porque sou bicho, porque sou mulher. E sinto fome porque não tenho medo, porque tenho urgência. Sinto fome da pele que repousa - calmaria. Sinto fome da transição do estado letárgico para o estado de alerta. E dos nervos que entram em choque, colapso consentido (e com sentidos). E o que me apetece é mais que alimento - é banquete que nutre meus tecidos e me aquece. Salivo. Os lábios molham-se. As bocas sucumbem às tentações da carne, meus pecados capitais. E o alimento mastigado, sorvido, lambuzado pelos lábios encharcados é enaltecido - glorioso rito antropofágico. E essa carne não reduz à míngua, ao contrário, cresce, multiplica, agiganta-se como o pão e o vinho - banquete divino. E meu mastigar é sem dentes, carinho ofertado pela boca macia. O alimento quer ser devorado, lançando-se contra mim em atitude suicida. Aberta, o recebo. Tensão. Calor. Explosão. Inferno.
Assim jaz teu falo em meu sexo e tua língua em minha boca: alimento-me de gozo e saliva.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

esse bicho

Essa coisa de fúria mal lavada, indigesta, não cifrada. Esse bicho que consome de dentro para fora. Essa alforria duvidosa - uma liberdade que ainda não me fez totalmente liberta, pois continuo escrava de mim. Não consigo me desvencilhar de mim. E esse eu tem aquela outra - aquelas outras todas. E ser múltipla também é ser decadente, escória, espelho da indecência de gente forte. E ser forte também é ser fraco, mas sem suavidade: é ser fraco e grave. E essa força estilhaçada corta a carne e é incompreensível. Mas ainda prefiro ser essa dúvida constante a uma verdade irrefutável qualquer. As dúvidas movimentam-se, coleantes. As dúvidas geram possibilidades, mas também escavam feridas.
Aí, ele me pergunta:
- Que bicho és?
E com olhos transparentes respondo:
- Não sei. Mas não é exatamente isso o que me torna interessante?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

metáforas

Uma nova e belíssima metáfora para o gozo: "fogo-branco" (http://e-agora-jose.blogspot.com/2009/11/sodoma.html)...

Adorei isso... Alma liquefeita, pequena morte, e agora fogo-branco...
O orgasmo é o que há de mais belo...

domingo, 1 de novembro de 2009


Ilustração minha, baseada na pintura Il Bacio, de Gericault


Ilustração minha, baseada em uma fotografia que achei na rede.

micro tragédia romântica

Ela chorava baixinho na cama para que não pudesse se ouvir. O choro era para dentro, era engolido, tragado, escondido. Não queria ouvir seus próprios soluços.
Escorregava para fora da cama e buscava algo que pudesse usar para feri-lo, mas passava minutos intermináveis a fitá-lo com o triturador de gelo na mão, sem conseguir avançar. Ele dormia sem culpa, pesadamente, com um quase sorriso no rosto bonito.
Ela o amava. Ele também a amava - do seu jeito. Mas ela não suportava que ele amasse outras mulheres com a mesma intensidade, com a mesma ternura que fazia seu corpo vibrar a cada palavra, a cada suspiro, a cada promessa de amor. Não conseguia deixar de vê-lo, não conseguia deixar de atender seus telefonemas no meio da noite, quando dizia queimar de desejo e contava da urgência que sentia de seu corpo. Sentia-se infeliz e irremediavelmente perdida de amor.
Trinta e cinco anos se passaram e agora ela sorri, feliz. Ele é, enfim, todo seu. Ele havia passado os últimos trinta anos em uma cadeira de rodas e inválido após um acidente de carro no qual Angela era a condutora.

Sunday afternoon

E chove. O cheirinho de terra molhada e o barulho da água caindo da calha são gostosos. O horário é de verão mas o sol se pôs ainda pela manhã. Tomo conta do sofá e fico curtindo aquela paisagem do Sumaré encoberto pelas nuvens cinzentas, enquanto a chuva bate no vidro da janela. Descobri que estar sóbria o tempo todo não é legal: faz bem ver as coisas em outras cores às vezes.
E um blues toca bem baixinho enquanto os olhos estão cansados da luz...

sábado, 31 de outubro de 2009

Saturday night

A clausura rebenta em silêncio sépia. As paredes cheiram a mofo e a insônia perturba. Lá fora os sons da noite são quase imperceptíveis, intercalados e cadenciados. A lua está quase cheia.
E eis que o monstro que sou sente-se vivo novamente, olhando para o céu escuro com um sorriso indecifrável no rosto.
Hoje eu vou sair só. Hoje vou perambular pelas ruas de pedra cintilante. 
Hoje vou ver a noite morrer.


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

I need to write something, but i have no idea about what...
It might be something about crazy people...
:)

Ia escrever sobre loucura, mas acabei parindo um conto sobre Deus e o Diabo... bem irônico...

Minutas IV

Escárnio II

Escarrei na cara do Escárnio... Quem ri por último realmente dá a gargalhada mais sacana.

Inspiração

A inspiração é ritualística: sempre vem com uma garrafa de vinho e boa música. Se não houver vinho ou música, improvise: faça sexo.

Achados e perdidos

Alguém encontrou minha sobriedade por aí? Só para constar, pois não a quero de volta.

Friday morning...

My back hurts like hell and so does my neck. The sky is fucking blue and i'm stuck in this cold basement again. Sometimes i hate these papers...

And there's no music playing...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Thursday morning...

Suddenly he comes in through the frontdoor like a hurricane and asks me if i would marry him. With the glasses on the tip of my nose i say "ok". I start reading my book again. I see him smiling.
We're old and we don't dance like we used to in the early days, but we're still crazy about each other. I'm 73 and he's 63. It's 40 years from now. He'll be proposing me everyday. And i'll keep saying "i do" to him... till we get really tired and life tears us apart (but i don't really believe this bitch can beat us...)

[Yes, sometimes i have those "and they lived happily ever after" dreams...]

Minutas III

Amor

Desrazão. Exagero. Saudade. Indecência.

Desejo

Ver Amor.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Minutas II

Sono

O sono teria sido perfeito, não fosse um sonho esquisito com zumbis que corriam atrás de todos pela imensa casa.

Sonhos

Não consigo me livrar deles.

Pesadelos

Não sei distingui-los dos sonhos.

Eventos

Há os idealistas e os farristas. Eu sou um pouco dos dois, mas mais idealista que farrista. Infelizmente.

Perguntas e respostas

Gosto da analogia entre perguntas e respostas / namoro e casamento. As perguntas são o combustível que move o corpo e a alma, o mistério que seduz o espírito, o namoro. As respostas são como o casamento: depois de conhecê-las todas, desinteressamo-nos. E começamos, muitas vezes, a nos fazer novas perguntas, a querer desbravar novos mistérios. Por isso não creio em verdades absolutas ou irrefutáveis. Por isso me construo e desconstruo à medida que não me compreendo.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

sick and tired

Hoje ele disse que não me quer "doente de saudade". Doente de saudade... sim, eu estou doente de saudade. Quem diria?
Não consigo dormir à noite. Falta alguma coisa... o molde para eu encaixar meu corpo, talvez? Pode ser... O fato é que só durmo em paz quando durmo com ele...

Sete Cidades
[Legião Urbana]

Já me acostumei com a tua voz

Com teu rosto e teu olhar
Me partiram em dois
E procuro agora o que é minha metade

Quando não estás aqui
Sinto falta de mim mesmo
E sinto falta do meu corpo junto ao teu

Meu coração é tão tosco e tão pobre
Não sabe ainda os caminhos do mundo

Quando não estás aqui
Tenho medo de mim mesmo
E sinto falta do teu corpo junto ao meu

Vem depressa pra mim
Que eu não sei esperar
Já fizemos promessas demais
E já me acostumei com a tua voz
Quando estou contigo estou em paz
Quando não estás aqui
Meu espírito se perde, voa longe


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Minutas

O tempo

Parei esbaforida sem saber em que dia da semana estava. Precisava atar novamente minha vida à maldita linha do tempo. O tempo, esse estranho relógio de contar a vida regressivamente...

Memória

Guardo as memórias amassadas que escolho esquecer no fundo de alguma gaveta entulhada de coisas inúteis. Mas sempre há dias de limpeza. Sempre.

Epitáfio

Aqui jaz a loucura, o destemor, o avesso das coisas. O mundo sobreviverá sem a dúvida constante?

Solidão

Foi quando se olhou no espelho que percebeu que havia um imenso cordão de isolamento à sua volta: não havia ruído, movimento ou calor naquela imagem.

Crueldade

Ela sorveu todo o veneno do mundo e sorriu ao regurgitá-lo na boca de seu amante.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

conselho de amiga

Minha amiga "R" estava meio chorosa ontem, em dúvida sobre o que pensar do caso mais recente dela, inconformada com a mudança radical de rumo das coisas.
Bom, eu digo o seguinte: nós mulheres somos sentimentalmente volúveis, nos apaixonamos pela atenção que o outro nos dá, somos suscetíveis a galanteios e sedução, mas isso é perfeitamente explicável. Somos sentimentais demais, viscerais demais, exageradas demais. Quanto ao homem, ele é volúvel à medida que vê seios e bundas e bocas e olhos (mais seios e bundas do que bocas e olhos, claro). É até natural que a fantasia erótica dele seja uma suíte em Berlim com uma penca de mulheres (se ele vai dar conta do recado, aí já é outra história). Mas depois de uma certa idade, há coisas que ficam apenas na fantasia.
O estranho mesmo é o homem que se apaixona perdidamente por uma mulher diferente a cada semana - esse é de se desconfiar! A menos que ele tenha 15 anos, literalmente esqueça. Se ele é indeciso e não sabe o que quer, pior ainda. Muito provavelmente ele é um grande babaca. E grandes babacas acabam sozinhos, como o burro que morreu de fome entre os dois montes de feno.
Então, minha amiga, bola pra frente! O cara que vale a pena é aquele que te ama com a mesma intensidade todos os dias, apesar de tudo - cara amarrotada quando acorda, tpm, celulite, quilinhos a mais - e tenta te reconquistar diariamente. Isso é meio clichê, mas não é que faz sentido?
Galantear uma mulher diferente a cada dia é fácil. Difícil mesmo é mantê-la interessada.
Então, sorria: você acaba de se livrar de um carregamento de inutilidade.
;)


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Escárnio

Esbarrei com o Escárnio dia desses: com as mãos nas ancas e meu inconfundível ar de cinismo o encarei e, com toda pompa e circunstância, mandei que ele se fodesse.


terça-feira, 13 de outubro de 2009

insônia - ainda sobre a saudade...


Despi-me de minha camada mal lapidada e diamântica - ah, cansaço de sono tardio e solitário... Fecho os olhos entre pensares e teus suspiros e me reviro em teu suor. A cama é fria e detesto o gosto do sono. Não durmo - repouso apenas. Não que tua paz não me apascente a alma: o pensar de que tudo passará em breve é que me queima o juízo. Por que não posso atar teu corpo à cama e desligar o tempo? Podemos viver aqui para sempre? Podemos morrer aqui? Tem hora para voltarmos ao mundo?
Desligo a tv. Finjo que é noite. Aperto os olhos e passo minha perna por cima da tua. Para, tempo! Para! Maldito relógio de contar segundos regressivamente... Essa coisa estranha me revira o estômago, me enjoa. Será medo ou a bebida da noite passada? Dúvida molhada e sombria. Meus dedos enlaçam os teus e tremem. Meu corpo inteiro chora. Não sei o que tenho. É o alcool ou o contorno que deixarás nos lençóis? É a minha intimidade privada de luz. Será o vazio que a falta da tua presença - ainda não partida - me faz?
Minha insônia é o desassossego de um intervalo seco, de folhas amarelas, de ventos uivantes. Ainda tenho medo de ventos uivantes. É o pó que me cega os olhos e levanta o vestido. É a tempestade que me assombra. É a espera das noites que despertarão eternas em manhãs sem despedidas.
É saudade, apenas.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

utopia

Minha utopia é cinzenta,
disforme, caótica,
manchada de tinta,
orgia verbal.

Minha utopia é Pasárgada,
o longínquo inferno,
virgem faminta,
fonema carnal.

Minha utopia é oca
cansada, vadia,
descrente, macia,
poema vitral.

Minha utopia é boêmia,
devassa, cretina,
mulher descabida
cansada da vida
da foda e da lida
da porra do mundo real.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

a saudade

Eu te arranho com os dentes e com a voz rouca de saudade. Arranho teu rosto com um olhar que fere, uma certa mágoa, um resquício de volúpia. Ponho-me em movimento, elíptica, a dizer-lhe sandices em silêncio. Mas o meu silêncio faz festa, barulho, música. O teu silêncio fere-me mortalmente, é arma letal contra minha loucura. Tua falta de verbo maltrata esses bichos que eu sou, essa coisa que eu sinto. Deitamo-nos sobre amenidades e lavanda, onde os pecados não são ditos. Há apenas desejos e o resto cobre-se de mistério. Sente que há cadência no palavrear? É o bolero que toca em silêncio no quarto, na esquina de nossas transversais. Há saudade na morte e muito mais saudade na vida. Não houve promessa, adeus, ternura. Há a saudade. Apenas.

domingo, 4 de outubro de 2009

Pois sim: não sou a pessoa mais paciente do mundo. E realmente preciso dormir. Aliás, não sei por que fiquei acordada até agora.

Já dizia Balzac...

"Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis para um rapaz. Com efeito, uma jovem tem ilusões, muita inexperiência, e o sexo é bastante cúmplice do amor, ao passo que uma mulher conhece toda a extensão dos sacrifícios que tem a fazer. Lá onde uma é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas à do amor, a outra obedece a um sentimento consciente. Uma cede, a outra escolhe."


votos


Não quero fazer votos de amor eterno ou amor futuro. Quero fazer votos de amor presente, de amor onde se vive um dia de cada vez. Quero amar no presente e com a urgência do último dia e, assim, não deixar que as coisas da rotina atrapalhem os momentos nossos. Eu quero compreender a rotina e aprender a conviver com ela (porque ela existe, é real e mais duradoura que o amor). Quero transformá-la em festa. Quero fazer dela a terceira ponta de um ménage sem dias contados para acabar. Mas não quero que acabe. E também não quero que "a morte nos separe", pois isso significaria nunca mais ouvir sua voz, brigar com você, tomar café juntos, falar dos amigos esquisitos, ficar magoada com a sua teimosia ou aturar seus rompantes de fúria. Quero que haja apenas eu e você, que sejamos mais do que pessoas que se amam - pessoas que são companheiras de vida. Porque eu quero que haja apenas nós dois quando os dias estiverem nublados ou quando houver céu de brigadeiro. Porque esses instantes são únicos e não podem ser refeitos, mas geralmente conseguem ser desfeitos para nunca mais.
Com alguma sorte, desejo que você me compreenda, me aceite, me deixe quieta quando meu gênio estiver faiscando. Quero que aceite minha liberdade e minha independência, assim como meus momentos infantis e fracos, meus segundos de insegurança e intolerância. Porque eu sou difícil, eu sei. Todo mundo é.
Quero conseguir te beijar nos seus dias de mau humor - aliás, quero te beijar sempre. E isso é complicado, pois os casais se esquecem dos motivos que os fizeram chegar até ali, no auge da rotina. E eu digo: se nós conseguirmos, é porque decidimos acreditar: acreditar que conseguiríamos ficar juntos e conviver com a rotina - ou sobreviver a ela. Decidimos acreditar que não há razões para nos amarmos, mas que há incontáveis motivos para querermos estar juntos. Apesar de tudo.

sábado, 3 de outubro de 2009


Era meio-dia e era hora
de minh'alma enroscar-se à tua
e fundir meu corpo ao teu
por um momento que perdura
infinito instante de fúria
de bocas e tilintar de beijos
de água sorvida de lábios teus
água de poesia tua
fluidez de gozo meu.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

"E desde então, sou porque tu és
E desde então és,
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás... Seremos..."

(Pablo Neruda)

ai, ai...

Estou tentando escrever algo decente, mas acho que a overdose de concursos da última semana me esgotou...
Totalmente sem criatividade para contos... Totalmente.

domingo, 27 de setembro de 2009

manifesto contra comitês de concursos literários

Então... (em SP, seja no interior ou na capital, quase toda história começa com "então"...)
Onde estava mesmo? Ah, sim... "Então"...(!!!) Descobri que tudo o que foi postado até hoje nesse bendito blog não pode ser usado em concursos literários (pelo menos na maioria deles). Quem acompanha ou dá uma espiada de vez em quando, deve ter notado que os três últimos posts têm sido diferentes do que esse espaço geralmente apresenta... Na última semana precisei escrever dois contos de um dia para o outro para poder participar de um concurso literário, pois era vedada a inscrição de obras já publicadas (inclusive apenas em blogs pessoais). Até criei um outro pseudônimo - que por sinal gostei bastante. 
Pois é... Se esses textos não são inéditos, Deus sabe o que eles são... Na minha concepção, não seriam inéditos se já tivessem sido publicados por terceiros em algum outro lugar - o que não é o caso. São meus e eu os publiquei (e publico) no meu blog! Então (de novo!), os poemas que tenho rascunhados em meus cadernos, guardanapos, cantinhos de folhas de jornal, e que mostro aos meus amigos, familiares, leio em saraus, também não podem ser considerados inéditos? Acho isso de uma imensa estupidez, porque esses comitês partem do princípio que você precisa escrever e guardar a sete chaves, trancar na caixinha secreta, na agenda de adolescente ou no fundo de uma gaveta qualquer. Isso é insensato.
Todo artista tem um quê de narcisista, de exibicionista, isso está entranhado nele. Se eu pinto e ninguém vê, não sou artista plástica; se escrevo e ninguém lê, não sou escritora. Se amo e não manifesto, não serei amada de volta. 
Nós somos o que mostramos ser. Eu sou isso aqui.


sábado, 26 de setembro de 2009

Vícios

Ando cansada. Há milhares de coisas acontecendo ao mesmo tempo e, mesmo reclamando, não consigo viver sem uma dose diária (e exagerada) de estresse... Sou viciada em estresse (existe estressólatra?).
Bom, o fato é que sinto falta de dormir bem. E dormir bem não significa dormir muito, significa... dormir bem. E ponto. O grande lance é que só consigo dormir bem de verdade quando ele está aqui, quando me coloca para dormir com um cafuné que me nocauteia em menos de um minuto. Zilhões de coisas acontecem antes do bendito cafuné, confesso... Mas aqueles dedos têm algo de mágico, de misterioso, de entorpecente... vai saber... Ele me dopa... 
Acabo de descobrir outro vício: o cafuné... Cafunólatra?


Adoro neologismo...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

amenidades

Uma caneca de café forte, você e um livro. Tudo isso embaixo das cobertas, falando banalidades e esquentando a ponta do meu nariz em você (porque você sabe que a ponta do meu nariz fica gelada e que eu gosto desses dengos).

Ah... me acorda na outra vida?

domingo, 20 de setembro de 2009

boa leitura

"(...)
E assim como serei o mais cruel, estupro consentido, porém sempre violento, serei o mais carinhoso dos seus amantes. Te dizendo as palavras que seus ouvidos sempre mereceram, mas que você procurou em outras bocas. O carrasco e o libertador, divino e profano; todos os papéis havemos de representar no palco dos lençóis porque em nós há uma legião de personagens que querem vida. No entanto, só com você os meus demônios querem contracenar. E no inferno da carne o paraíso da alma reside, pleno por segundos eternos.(...)"


Trecho de "A nossa trilha", de José Rodolfo Klimek Depetris Machado.


Thanks, luv... It's beautiful...

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Parede

Eu te vejo aproximar-se de meus pés. Seus pés aproximam-se dos meus. Nossos pés encaram-se. Olho para cima e te vejo gigante. Descalça estou, descalça permaneço. Meu nariz para cima apontado mira na direção do seu queixo. Seu queixo sorri para meu cabelo desalinhado.
Seus pés avançam mais um pouco. Vou recuando. Recuo e encontro a parede. Seus dedos buscam meus pulsos e os erguem acima de minha cabeça. Seus lábios sorriem de um lado só. Não é um sorriso, é um desafio semisorridente.
Você avança e me encurrala na parede. Sinto algo pulsando contra minha barriga. Jogo-me para frente, abusada. Você força mais minhas mãos contra a parede. Mexo os quadris e dou uma risadinha petulante, tentando fazê-lo soltar minhas mãos, ocupando as suas com meus seios. Mas você não me deixa ir. Segura, então, meus dois pulsos com apenas uma mão. Você é forte. Seus dedos livres invadem meus lábios - os do rosto, primeiro - buscando minha língua. Teu corpo me esmaga contra a parede. Teus dedos me abandonam a boca e são substituídos pela tua própria língua, que me lambe rosto, orelha, pescoço, cabelos. O esfregar da sua barriga na minha deixa-me molhada, em prantos entre as coxas. Como chora o sexo, como queima o amor...
Lembro-me da primeira tarde, quando me puseste na mesma posição. Mas agora não me deixas mais escapar, fugir, encenar. Sua mão livre agora levanta meu vestido e puxa para o lado a calcinha que se afogava no meio de minhas pernas. Seus dedos encontram outros lábios. A ponta de seu dedo médio dança com essa pequena pérola encarnada que guardo nessa boca não menos vermelha. Meus joelhos falham, dobram-se, mas você me segura entre suas coxas. Seu dedo me dá pequenos choques e um queimor estranho se desfaz para fora de mim. Não sinto minhas pernas, acho que vou morrer. Teus dedos abandonam-me novamente e seu jeans escorrega pernas abaixo. E agora, livre, você namora meu umbigo, fazendo-o refém daquele desejo seu. Nossas coxas conversam, espremem-se, encolhem-se e se expandem à medida que dançamos. Fotografo teus olhos e tua boca murmurante de lábios rachados.
Teu sexo transpira em meu umbigo, rindo para mim. Levanto tua camisa e encontro teu peito perdido entre pelos e mamilos que cumprimento com minha língua. Teus mamilos respondem, atônitos. Apontam para mim, ousados.
Nossos sexos dialogam entre fluidos monólogos. Encaixes perfeitos, queimor lento e absurdo. Engolem-se. Engulo-te. Coxa levantada, parede maltratada. Uma batida e um suspiro, outra batida e um sussuro. Gemidos. Cadência aumentada. Galope. Caímos. O chão agora é o apoio de tuas costas, e eu, amazona, desfaço-me faceira. Tuas mãos, teus milhares de dedos estão por toda parte. E enquanto incha me acarinhando por dentro, presenteia-me com um colar de dedos a me asfixiar suavemente, derretendo-me inteira da nuca ao ventre, em espasmos encharcados de espuma branca e espessa derramada no fundo da concha venusiana, no centro do mundo, no meio do amor.

Les amants


Trancaram-se no quarto e ele se despiu como se já estivessem ali há eras e não houvesse a necessidade de dizer que sentia sua falta. O desejo era explícito e cada parte de seu corpo nu deixava claro o quanto ele a desejava exatamente naquele instante. Permaneceu vestida, coxas cerradas e peito ofegante. Havia meses desde seu último encontro íntimo no refúgio das escadas. A boca rosada servira-lhe de abrigo naquela noite distante. E após de cada um de seus encontros, ela prometia a si mesma que não tornaria a vê-lo. Mas o brilho em seus pequenos olhos, a ternura em sua voz e as queimaduras que aquela pele causava na sua faziam-na recebê-lo sempre de volta.
Havia outros amantes de quem se servia como bem entendesse. Eram todos livres, arbitrários, loucos. Os outros dois encaixavam-se perfeitamente em sua insanidade e deixavam marcas por seu corpo, marcas de noites inteiras de luxúria e devassidão, marcas que faziam seu corpo estremecer em gozo inúmeras vezes na mesma ocasião. Usavam seus corpos abertamente e eram felizes.
Ele, porém, era diferente dos outros dois. Beijava-lhe ternamente enquanto a penetrava e o único som detectável era o roçar de seus corpos contra os lençois. Sua respiração era silenciosa. Gemidos não existiam. Arfares e grunhidos eram nulos. O gozo era pacífico. Ele era a paz em meio ao tormento sexual que os outros  provocavam. E, por mais estranho que pudesse parecer, ele era o único capaz de fazê-la abandonar tudo, o único capaz de torná-la fiel. Mas ele não queria; ele a desejava mas não a queria. Ela era, então, de todos, mas sabia-se só dele: ela era pertença do único que não a amava.
Despiu-se e recebeu o outro corpo de braços, coxas e alma abertos. Mais uma vez ele a possuiu silenciosamente. Adormeceu com a tranquilidade de uma criança sem pecados e o braço em torno de seu corpo, encaixados como declarados amantes. 
Ela o observava enquanto dormia, murmurando baixo entre os lábios que o amava, beijando suavemente a boca calada e os olhos fechados. Ele parecia tão doce. Sorrateira, retirou-se do enlace do braço e vestiu-se. Revirou a bolsa à procura do telefone móvel. Ligou. Caminhou para o banheiro e encostou a porta.
- Alô?
- Olá... Desculpe ligar agora. Precisava ouvir...
- O que você precisa ouvir, meu anjo?
- Diga-me...
- O quê?
- Diga-me que me ama...
- Eu te amo... muito. Eu realmente te amo, anjo.
- Obrigada... Boa noite. Volte a dormir...
- Beijos...
Despiu-se novamente e voltou a deitar encaixada no molde do outro corpo. Puxou o braço dele para que a cobrisse. 
- Aonde você foi?
- A lugar nenhum. Estou aqui com você...
Adormeceram, despertaram, amaram-se novamente e se despediram. Só não sabiam até quando.

domingo, 13 de setembro de 2009

a pequena felicidade...


Havia um tanto de solidão no silêncio. Mas, às vezes, o barulho dos copos e vozes era vazio e oco como a solidão em si. E na imensidão do azul-laranja, os olhos enchiam-se da água salgada da baía, e as recordações vinham ondulantes, bailarinas petulantes e exibidas aos olhos dos saudosos.
E a memória dos dias felizes desnudava a saudade qual fruta ou doce descascado, reavivando os momentos que haviam passado e permaneceriam, sempre, na pele. E a alma, marcada a fogo pelo outro ser - inteiro - instituía o amor.
O sol do ser ardia a carne e fazia sombra ao imaterial. Era tudo completo e fragmentado, certo e duvidoso: a controvérsia do ser na autoridade do estar. Alegria e cansaço vistos da janela em manhã de domingo. Os filhos que não nasceriam e os que já gritavam em torno da rede. O amor menor.
A dor da partida que coagulava o sangue... a emoção do retorno - mesmo que breve - que aplacava os soluços infantis dos amantes: o brilho vivificado nos olhos com a certeza de um novo recomeço a cada dia.
E a beleza? Esta permaneceria intacta, sempre.

Repostando... texto publicado em 14/06/2008: http://e-agora-jose.blogspot.com/2008_06_01_archive.html


sem título


Reinvento-me
indefectível esfinge
indecifrável mulher
fragmento epitelial
com lágrimas nos olhos,
vestígios de saudade
da vida, do corpo,
da pequena morte,
do verde profundo e náufrago
no mar sem fim do par espelhado.
Reinvento-me
labiríntica
forma coleante
a valsar sob teu peso
teus pelos
teus olhos
tua boca semiaberta.
Reinvento-me,
desfragmento-me,
alimento-me da saliva,
da carne,
da sina,
do sal da pele molhada,
do doce amor liquefeito entre as pernas.
Reinvento-me em ti,
carne em brasa.
Reinvento-me,
partícula de mim,
inteiro descomposto
e moldado do fundo da tua cama
no poço de tua alma,
no sótão de teus sentidos.
Reinvento-me e renasço
de teu gozo,
de teu sexo fecundo,
de tua língua parideira.
Reinvento-me, enfim,
inteira.


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

À mulher triste


Olha-te no espelho, mulher triste
desenha um sorriso em teus lábios
pois tua vulgar mesquinhez
não trará o tempo de volta.
Sorri enquanto o tempo não te cansa
enquanto o tempo não te leva
enquanto a música ainda toca
enquanto o baile não acaba.
Sorri, mulher triste
porque nem tuas palavras ordinárias
farão outros sorrisos apagarem
outras vidas amornarem
outras almas inquietarem
porque tu, mulher triste,
és apenas vento ligeiro
que não perturba a calmaria
dos dias quentes de primavera.

sábado, 5 de setembro de 2009

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Acho que perdi o meio das coisas, o fio da meada. Onde foi que eu deixei meu entendimento, minha razão?
Começa a meu dar uma sensação estranha, um gosto ruim na boca. É a impressão de que as coisas estão tomando um rumo já conhecido por mim, percorrendo um caminho pelo qual já andei antes. O pior é que "no meio do caminho tinha uma pedra" que me fez mudar a trajetória.

Eu preciso de um GPS...


terça-feira, 1 de setembro de 2009

Paranóia II

Está frio. Os pés afundam na terra orvalhada da noite. O muro verde ficou para trás. As lamúrias do doente da cama ao lado também.

Do lado de fora, as sombras têm outro movimento: o mundo parece menos turvo. Não há mais vozes pedindo para eu me acalmar. Não há mais mãos vestindo-me de louca. Não há mais pílulas coloridas ou verdades inventadas. Não há mais ninguém para aplacar meu fogo, minha fúria, meus rompantes. A mulher das malditas agulhas ficou do lado de dentro do muro. O albino desgraçado que me machucava o meio das pernas também. Ele era mau, muito mau comigo. Odiava quando me arrastava para o quarto branco do castigo. Sabia que ele abriria as calças. Sabia...

Minha asfixia apocalíptica parece conter-se aos poucos. Ainda ando trôpega, ainda estou dopada. Mas tudo começa a fazer sentido. Eles me deixaram fugir para saber onde vou. Aqueles filhos da puta...

Gente começa a surgir. Está escuro. Vejo pessoas juntas, muito juntas, encostadas em árvores, fazendo movimentos frenéticos e repetitivos, tais bichos, arfando e gemendo. As veias do pescoço do homem estão saltadas, não sei se de raiva ou de amor. Não sei a diferença. O cretino gigante albino balbuciava que me amava enquanto me rasgava com aquela porra dura dentro de mim. Eu sei que ele mentia, eu sei que na verdade ele me odiava. Por isso me machucava de todas as formas possíveis, onde pudesse se encaixar. No começo eu lutava, gritava, mas isso alimentava o seu sentimento - qual fosse - e o deixava sorrindo enquanto babava sobre mim. Com o tempo, acostumei-me com a punição e já não esboçava reação, e aquilo o irritava profundamente, fazendo com que me acertasse rosto e cabeça até que eu gritasse ou chorasse novamente. Aí ele dizia "boa menina" e sorria mais forte dentro de mim.

A essa altura o céu começa a ganhar uma cor estranha, uma mistura de roxos, lilases e laranjas. É a hora do dia - ou da noite - onde céu e inferno se misturam. Sempre houve bons que caíram e maus que subiram. E nessas horas em que as cores se confundem os enganos são desfeitos, afinal, Deus e Diabo mantêm relações diplomáticas.

Agora preciso me lavar. Preciso me trocar. Não posso parecer tão doente, tão... louca. Estou bem. Mas a garganta está seca e as mãos tremem absurdamente. O suor salpica meu rosto, minha nuca, escorre pelo meio dos seios. Por um instante, sinto falta das agulhas daquela infeliz. Eu sabia... Foi um plano para que eu voltasse correndo para aquela merda de cama suada e repugnante. Mas não vou voltar. Também não sei onde ir. Preciso me lavar logo. Se me virem com sangue nas mãos, me mandarão de volta. Se eu voltar, eles me matarão. Ou terei sessões ininterruptas com aquele desgraçado. Prefiro morrer.

Se eu morrer, para onde vou? Tenho medo de ser mandada para o lugar errado novamente. Não sei se sou boa ou má. Não matei um homem - entendo que o livrei de toda dor que sentia. E de todo o incômodo que ele me causava. Fiz um bem duplo dentro de minha concepção mundana. Cometi um pecado mortal perante as leis divinas. Mas e o Diabo? O que tem ele a dizer sobre isso?

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

sobre a doença

Não sou pessoa frágil, dessas que adoecem a cada brisa fria recebida no rosto. Não, não sou assim. Não adoeço porque o corpo é fraco ou a imunidade é baixa. Não, não dessa forma: meu corpo é ótimo, minha imunidade idem (apesar de ser uma grande controvérsia se levarmos em consideração que meus hábitos não são os mais saudáveis).
O que me deixa doente - e muito doente - são as pessoas. O que me deixa doente é a falta de caráter. O que me deixa doente é o descaso. Nesse ponto eu sou frágil: meu corpo sucumbe às minhas ideologias, ao meu inconformismo, às minhas indignações. Meu corpo sucumbe ao "emputecimento" momentâneo com graves consequências. Meu corpo é uma máquina alimentada e lubrificada pelo espírito.
O que me deixa doente é essa raça que se diz superior e inteligente, que se mata por nada, que jura por nada, que mente por nada. Deixa-me doente o ar blasé de quem não tem chão, rumo, verdade, respeito. O que me deixa realmente doente são esses pequenos fantoches animados, porque na verdade, o mundo é um lugar muito bom de se viver.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

As mãos se fecham ao redor do pescoço
As pernas enlaçam o resto do corpo
prendem cintura, quadris, sexo,
escancaram o recato das coxas cerradas
no meio do mundo, no centro da cama
na curva escura
no canto de mim
para que cuspas fetiches e símbolos
em meu rosto, ouvidos, garganta
enquanto o falo vara a carne molhada
curra necessária ao macho em riste
dor necessária à fêmea em cio
negação à pureza ordinária
violação permissiva de pele e alma
teus dedos fechados, o ar que me falta,
o torpor ondulante do ventre em coito,
da dor - sofrimento - desabrochada
submersa, asfixiada,
da morte gozosa em sadismo desperto
teu orgasmo em minha dor -
paixão declarada.

poeminha Sáfico


Montes convexos
vales macios
ciclos complexos
que convergem em rios
de carne acolchoada
quente esconderijo
de língua, dedos e lábios
grandes, pequenos,
beijos de bocas de sexo
e bocas de face,
falo guardado
entre dentes guardados
entre rasgos vermelhos
de lábios pintados
dois pares de seios
dois pares de coxas
duas fendas no meio
unívocas loucuras
carnes crepitantes
salpicadas de orvalho
incendiário desejo
venusianas amantes
órfãs de Lesbos.


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Promessa

Nos teus dias de cansaço, serei tua companheira, tua amiga - mais que tua amante. Nos teus dias de cansaço, entenderei teu silêncio, tua solidão, teu desejo de ficar só. Nos teus dias de cansaço, te amarei ainda mais. Nos teus dias de cansaço, serei tua cúmplice na separação temporária, na espera de que a sensação dissolva-se como açúcar na boca, trazendo de volta o sorriso ao rosto. Nos teus dias de cansaço, te trarei uma xícara de café fumegante e te beijarei a fronte, deixando-te a sós com tuas angústias. Nos teus dias de cansaço, estarei a tua espera com os lábios entreabertos e o sexo quente e desprotegido, para que te derretas e despejes o calor de teus novos sorrisos no fundo de minha alma...

sábado, 22 de agosto de 2009

citando Anaïs...


"A tua beleza submerge-me, submerge o mais fundo de mim. E quando a tua beleza me queima, dissolvo-me como nunca, perante um homem, me dissolvera. De entre os homens eu era a diferente, era eu própria, mas em ti vejo a parte de mim que és tu. Sinto-te em mim. Sinto a minha própria voz tornar-se mais grave como se te tivesse bebido, como se cada parcela da nossa semelhança estivesse soldada pelo fogo e a fissura não fosse detectável."

[Anaïs Nin - A Casa do Incesto]