EGO

"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

todo dia o fim do mundo

todo dia acaba o mundo
no cerrar dos meus olhos
em uma página amarela do tempo
em um suspiro de amor ou cansaço
mas a madrugada fecunda verde,
embrionária, pedra maciça,
estalo de vida acesa e salgada
desatino espiralado de doçura
dulcíssimo tempo
nascente na manhã vitral
poente no esquecimento do dia morto.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

do Reino dos Sonhos

Lá naquela curva depois do fim da Terra havia um reino: o "Reino dos Sonhos", dizia o rei-criança. Era um lugar de sorrisos e calmaria, um lugar onde a paz se instalou para nunca mais fugir. E também era sabido que naquele reino todos os males tinham cura, porque o rei possuía grandes poderes mágicos que afastavam monstros, medos e afins. Até as criaturas que se escondiam nas gavetas, embaixo das camas e dentro dos armários conheciam o domínio do rei sobre a arte da cura da alma. Mas o rei-criança - repleto de sorrisos e bufonarias - não sabia que seus poderes não eram infalíveis (exatamente porque era um rei-criança). E como toda criança - mesmo sendo rei e tendo super poderes - não podia saber todos os segredos do mundo. E foi assim que descobriu, em um dia como outro qualquer, que algo andava diferente. Sentia uma força estranha rondar seu reino, mas contava com seus poderes para afastar de lá todo mal que houvesse. Mas a desordem não era visível, o inimigo não tinha forma. E o rei se entristeceu por não conseguir enxergar o que havia de errado e por não saber como derrotar aquele dragão feito de ar e agonias. Sentou-se em seu trono. Meditou. Seus poderes mágicos pareciam não funcionar naquele momento. Sua agonia começou a consumir seu coraçãozinho de tal forma, que acreditou não poder mais ser rei daquele lugar mágico. Pensou em partir. Talvez precisasse enfrentar dragões que cuspissem fogo e ganhar cicatrizes e levantar outros reinos para que pudesse recobrar a força que achou que tivesse perdido. E chorou. E respirou com pesar. E quando olhava seu reino, já montado em seu ornitorrinco e prestes a partir, veio a pequena moça de olhos vermelhos e puxou a ponta de seu manto, estendendo-lhe uma pequena caixa e um bilhete em cartão negro. E abrindo a pequena caixa cuidadosamente ornada com uma fita dourada, encontrou um doce amarelo e reluzente como o sol que brilhava no céu. Sem entender, fitou novamente os olhos vermelhos da moça e abriu o envelope com o bilhete, que dizia: 

"Feito de um raio de sol roubado. Para te trazer o brilho de volta. Para você reluzir por dentro novamente. Para clarear sua alma de rei e te fazer reencontrar a força. Este doce tem poderes mágicos. Assim como você. Você é tudo que acredita ser."

E o rei abocanhou o doce feito de de raio de sol e instantaneamente sentiu sua força se reintegrando ao seu espírito, como se realmente tivesse poderes mágicos. E por fim entendeu que bastava apenas acreditar. No mundo. Nos doces mágicos. Em si mesmo.

... E o rei-criança continuou a reinar no Reino dos Sonhos, pelo tempo que quis continuar sonhando...

Para meu rei-criança.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

para sorrir boa noite

Teu filho sorri aqui dentro, me dando boa noite. E dorme quietinho junto de mim, ouvindo meu respirar, olhando meus sonhos, sentindo meus medos. E me faz um carinho sem a consciência de "existir", dizendo que tudo vai ficar bem, como se a tua própria voz ganhasse vida em meu útero. É você, simplesmente você eternizando o mundo em mim...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

pequeno bilhete de amor *

Você me dá bom dia com um ressentimento sonolento. Estava tudo dentro de uma agonia feita de sal que tomava conta dos corpos que alternavam insônia e estados de dormência. Estados alternados e desencontrados na noite quente de chuva forte, porque o mundo precisava desaguar suas agruras - alguém precisava fazê-lo. E, feito mar, meu espírito ia e vinha sem parar para ver o tempo adormecido no teu queixo - aquela curva que tanto gosto. Porque nosso tempo corre diferente, ele pára e nós continuamos. Mas o tempo do mundo nos massacra com seus clamores fora de ordem - da nossa ordem de paz. E sou pega no susto vez ou outra, com a sensação de que o mundo pode parar de girar se eu não estiver no comando da embarcação - porque eu preciso lançar tudo ao mar e salvar tudo dele ao mesmo tempo. E vivo cheia de agonias que me consomem mas que fazem parte disso que sou. Desculpe-me, meu amor, não sei viver sem agonias. Gosto das montanhas-russas - ao mesmo tempo que me desgastam, me atiçam o juízo. Só que, no meio de tanta beleza, de tanto amar, de tanto querer sem limite, esqueci de dizer: quero tuas agonias junto das minhas. Teus maremotos. Teus medos. Tuas verborragias fora de hora. Tuas inconstâncias.
Sendo assim, espera-se apenas que o marujo se lance ao mar. E confie.


* que deveria ter sido deixado no travesseiro na manhã de domingo...

domingo, 9 de outubro de 2011

da dor e outras drogas

O relógio gritava uma hora tarde qualquer. Aquelas horas sempre bem vindas da madrugada tiravam-lhe o sono e o juízo. Era engolida por um desejo suicida ordinário, vontades de gargantas arranhadas e desmesuras passionais que se repetiam a cada instante incontável, a cada piscar de olhos, a cada pensamento intrigado e talhado de verdades. E quando aquela castanhura sorridente dos olhos de Josephine suplicava-lhe descanso, outro precipício se abria no meio daquele mundo de ardências e pequenos desesperos indecentes. E da candura de olhos esverdeados surgia uma criatura diferente, bestificada e avassaladora, de pele posta em brasa e semi-sorriso de caninos à mostra. Josephine, petrificada, sentia doer a curva do corpo, uma vergonha que se dissipava com a dor e cedia espaço ao desespero ruborizado que a violação provocava, rogando em prece ácida e ofegante que a morte não chegasse, que o suplício se estendesse vida afora - mar adentro - para que sentisse de verdade o que era a carne. E o inferno a consumia de dentro para fora, como se ele, o demônio, a devorasse pelo avesso. E se olhava nos espelhos dos olhos profundos de Josephine, lugar de memórias de tempo presente, anunciando a morte quente e violenta que colocaria, enfim, um sorriso cretino naquele rosto vermelho de atrocidades de amor. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

a eterna festa de Beltane

Sempre há um louco em cada esquina. E além dos loucos felizes, há os doentes, os pobres de espírito, os irrecuperáveis. Aqueles que se alimentam de restos, de mínguas, penúria, carência. Mas essas pessoas não fazem diferença ou marcam presença. São coadjuvantes. Ou melhor, estiveram de passagem em algum lugar que não as reconhece como algo importante, mas insistem em espreitar da sombra, de algum lugar triste e eternamente solitário. E não há tristeza maior que a solidão.

Cá estou com minhas memórias desta manhã e de todos os outros dias. Cá estou com as declarações públicas de amor. Com o filho fincado em meu ventre que, antes que esperássemos, voltou para junto de alguma força seminal e resolveu esperar mais um pouco. Cumpriu seu papel em nossas vidas, mesmo que tão brevemente. Cá estou, em ETERNA festa de Beltane, onde celebramos a fertilidade, o amor, a união, nosso verão, primavera, nossas flores fora de estação. Porque somos dois e apenas um nessa imensidão de coisas por vir. Porque nos completamos nessa fé em pequenas coisas. Porque a vida nos sorri todos os dias. Porque sorrimos todos os dias. Porque nosso lugar é no peito do outro, onde mal algum nos alcança, onde a vida se alegra quando há o roçar de peles, de línguas, dessas confissões bonitas que teus olhos esverdeados me fazem em silêncio cada vez que gozamos. Porque não me coloco onde não sou querida. Eu estou. Eu sou. Eu sou parte dessa vida que se ajeita junto com a minha. 
Eu permaneço, Heinz Prellwitz. Em você, pro resto da vida.

domingo, 2 de outubro de 2011

Josephine

Josephine amanheceu com a noite nos olhos - era sempre noite naqueles olhos claros e castanhos borrados de maquiagem. E virava os pares enigmáticos pelas ranhuras que nasciam do chão como raízes, subiam pelas paredes até o teto, como se a tinta gasta de cor crua e encardida tivesse derretido de seu corpo e escorrido pelo lençol, como vida liquefeita, amor alcoólico, semi-deslumbramento. Fundia-se à cama e a todo o resto, como se fosse vento manso, ar, ar, ar. Respirava amoras, sorria insultos. Desintegrava-se. Embriagava-se em suas ebulições míticas. E os montes brancos latejavam na boca da Vida, tensos e cobertos de musgo invisível, pelos, lindos, alimentando a fome bradada naquela garganta. E a miséria lustrosa da escassez de temores cravava suas unhas no colchão de nuvens, deixando apenas os olhos de Josephine vidrados nas horas salpicadas nos girassóis do quarto, repletos de mistério e completamente nus de segredos. Porque Josephine era inteira enigma - mistérios decifráveis, palpáveis, substanciais.

domingo, 4 de setembro de 2011

dois

Eu, essa primeira pessoa explícita em absurdos verborrágicos, confesso amor, absurdos e doçuras. E essa paz esquisita que me entra aos poucos pelas fendas corporais e por portas de alma, não me ilude ou me engana ou dissimula. É uma paz ardida que cicatriza mais que feridas, cicatriza abismos e assombros. E o começo tem um quê de meio das coisas, onde os fins não são tão explícitos. É tudo tão agora, tão corrente, que não há uma razão que se faça necessária nas coisas bonitas. Elas simplesmente o são. E eu respiro fundo para sentir a lentidão do ar se deslocando para dentro, como se tudo fosse durar para sempre - porque a infinitude de ti me agrada a ideia, me agrada os sentidos. Agita-me o corpo tua alegria de olhos esverdeados de gozo, marcados do cansaço que deixamos à porta do mundo - olhos de sal corrente que me desorientam o discurso e me guiam vida afora. Você - bússola, mapa, certeza. Destino encontrado. Minha releitura da fé¹.


¹ Pequena confissão após reencontro. Sorrisos cadentes.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

drops

O mais bonito nisso tudo é me ver através dos olhos do outro - como se pudesse me enxergar a partir de um corpo que, mesmo não sendo meu, está tão contido em mim quanto essa carne que me cobre o espírito.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Clementine e o fantasma deposto

Subiu a rua até os pulmões gritarem. O ar gelado e seco da madrugada sufocava mais do que sua vida inteira. E o nojo de ser quem era podia simplesmente ser expulso aos gritos, aos solavancos, às bofetadas. Era exorcizada todas as noites aos pés dos desejos alheios, onde escondia e amenizava sua culpa de menina. Cada vez que imaginava que se tornar mulher havia sido lento, doloroso, profundo, sentia vontade de chorar. Perdeu-se entre lençóis sem nome, sem rosto, sem memória. Guardava apenas uma memória do que pensou ser amor. E o que era bonito havia sido jogado na sarjeta com o que ela tinha de inocente, junto a um punhado de mentiras que sua meninice teimava em acreditar.
Clementine estava novamente naquele canto escuro dos seus sonhos, onde monstros e fantasmas a assombravam e o grito ficava contido na garganta. Mas o gosto amargo dissipava-se lentamente na boca, o suor secava na pele, e o frio ia embora aos poucos. O que trouxera aquelas sensações em tempos distantes não mais existia. E estava ali, parada, olhando aquela sombra se desfazer, virar pó, sumir no tempo abaixo da terra, debaixo dos pés. E entendeu, enfim, que o fantasma só existia porque ela o havia inventado.  Entendeu, mais claramente ainda, que cabia a ela fazê-lo morrer de uma vez por todas. E, pela primeira vez em todos aqueles anos, sentiu-se leve. E o sonho ganhava cores aos poucos, ganhava outros sentidos, mas apenas um lugar: a paz dos sinos que cantarolavam ao vento, o lugar de palavras sussurradas que a chamavam para a realidade doce de quem sai do sono, do estado de dormência, do mundo turvo.

Clementine sorriu ao abrir os olhos - havia despertado do sonho estranho para sorrir ao mundo. Lá estava ele, dormindo bonito, dormindo em paz. Não, ele não era irreal. Não era uma invenção louca das suas frustrações. Não era plástico - não ele. Ele existia, existia e estava ali, ao seu lado, esperando que ela se libertasse de seus fantasmas, de seus próprios demônios. Esperava com o tempo. Esperava para poder, enfim, fazê-la sorrir brejeirices. Esperava para poder engravidá-la a cada toque, a cada beijo, a cada olhar cúmplice. Esperava para fazê-la feliz sem culpa ou remorso, sem mentiras, sem promessas. Simplesmente esperava. E a encontrou inteira. E ela se sentiu inteira. E ele havia feito aquela mulher descobrir o que era o gozo perfeito, a paz desmedida de quem morre e renasce pleno a cada instante compartilhado. Clementine sentiu tudo o que achava que não existia. Sentiu-se perfeita por dentro de sua loucura, de seus meios tortos, de sua irracionalidade. Sentiu que havia uma mulher diferente sendo parida dela mesma, uma outra que não sentia medo, que ria dos fantasmas insistentes que não mais faziam seu pulso acelerar. Ele não mentia - mesmo quando não falava, confessava com os olhos o que precisava ser sentido, muito mais do que dito. E jazia em seu sono honesto, murmurando palavras que não dizia de olhos abertos. E ela sorria, sorria com o sol que iluminava os olhos pela fresta verde da janela do quarto da árvore. E os lábios do outro, entre suspiros e palavras desencontradas, repetiam a primavera que brindava as outras estações.

Clementine não sentia mais medo. Estava plena de si.

domingo, 24 de julho de 2011

madrugada

O espírito desliza; o corpo deságua; desperto submersa em água e sal. Sinto tua falta nessa cama - sinto falta onde quer que repouse, porque careço de calor. Mas ouço tua voz do outro lado da porta e me pacifico. Vou me ninando com as palavras abafadas que não entendo. Você está logo ali e bem aqui, fundo, lento e grave. Mas só durmo profundamente quando você volta e se encaixa no teu espaço nessa cama, quando molda teu corpo no meu e diz que logo amanhecerá. E me beija boa noite.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

abismo, loucura, memórias recentes

Madrugada. Caminho no frio orvalhado das pedras cintilantes, nua, pés descalços, trêmula, verde. Eu sereno. Bato às portas pesadas dos sonhos alheios, às portas de saída do meu próprio labirinto. Ninguém responde. Caminho soluço tropeço caio levanto sigo. Sigo pelo cheiro que vem no caminho do lado de fora - lado de fora de mim. Falta-me o ar. Não há pensamentos, há somente sensações de olhos cerrados enquanto tua língua me castiga o meio das coxas. Castigo de língua e dedos. Ando rápido, com o peito aos saltos e o pulso prestes a explodir. E essa tua conversa íntima com minha boca me põe em choque, em transe, em estado de insanidade temporária. Estou prestes a correr. É quente, muito quente, e teus suspiros gemidos fazem vibrar tua língua em minha carne viva. E te suplico continuidade. Estou prestes a morrer. E corro. Corro pelas pedras cintilantes, pelo asfalto frio, pelo chão de terra batida. Corro até cansar as pernas, até perder as forças, até não sentir o chão abaixo dos pés e beijar o precipício que me sorri estrelas - lanço-me suicida no abismo gozoso de tua boca.
Descobri-me pronta. Descobri-me pronta quando segurei aquela criança e vi teus olhos brilhando. E quando lembro de Marcia Duarte dizendo "tenho livre meu ventre para gerar teu filho", meu corpo responde com seios inchados e enjoos sem propósito. Engravido a cada "eu te amo", a cada olhar cúmplice, a cada dia amanhecido ao teu lado. Vou parindo nossos dias, nossos filhos não gerados, nosso amor destilado nesse tanto de prosa sem nexo que talvez só você entenda. Germino tua loucura em meu ventre - loucura nossa. Germino dias, os anos passados, o futuro, nosso futuro. Germino esse amor, essa paixão. Germino você, homem bonito. Meu mundo. Meu encanto real.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

existires

Nada de estranho me afeta a ponto de fazer torcer minh'alma. Não que a maldita não berre de ardente cólera ou se refestele em dulcíssima paz. Ela se desfaz, sim, em crepúsculos laranjas ou azuis profundos anoitecidos. Mas minhas glórias e maldições nascem em meu próprio ventre e tomam rumo por baixo da pele, eletrificadas e combustíveis. Meus desejos incitam, minhas vergonhas retraem. Sou meu peso e minha medida. Nada me faz infeliz a não ser eu mesma, minha ira, meu ranger de dentes, meus medos intermitentes - quem não os tem? E não há infelicidade que valha um milésimo da vida que me resta, porque simplesmente não me quero infeliz. Desejo-me. Desejo-me ferozmente onde houver vida, onde houver desejo, onde houver inverno. Simplesmente desejo-me.

terça-feira, 5 de julho de 2011

coisas de casal

Tem feira na Lagoa domingo. Vamos comprar brócolis e beber caldo de cana. Comprar flores. Ver as pessoas na manhã de domingo. Andar de mãos dadas. :) (é, eu tô engraçadinha hoje...)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Medo, Desejo e Morte

Arriscava-se pelas curvas embebidas em álcool e aromas. Contorcia-se e embebedava-se, sem juízo. Não queria ser o outro, por mais que seus impulsos o arrastassem na direção da masmorra guardada nos dias gris. Morria e voltava a nascer e lançava-se novamente contra Morte, acridoce e bonita nas noites suicidas. E sorria instigante, travando combates que recomeçavam a todo instante, com dentes sujos de sangue e saliva a correr pelo canto da boca, feito besta desarvorada.
E quando Medo perguntou-lhe se alguma inquietação o afligia quando suas unhas cravavam a pele da Morte, Desejo respondeu:
- Morte é ousada. E todas as vezes que meus dentes e unhas manifestam-se em sua carne, Ela me sorri e me beija o espírito, suplicando para que eu alongue seu sofrimento, sua angústia, que adie por mais uma eternidade o recomeço. E o fim é glorioso, sublime, erótico. E então Morte cerra seus olhos, extasiada, tragando-me inteiro em seus lábios, consumindo-me na brevidade de um suspiro. Eis que renascemos.
Medo então parte, deixando Desejo a sós com seus devaneios gozosos e visões proféticas romanceadas em discursos amorosos metaforizados e estrelas cadentes.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

ouvir

Eu ouço. Ouço tua voz se me deito sozinha nesse meu quarto de quatro cantos inúteis. E, por mais que sinta frio, gosto de ouvir você na memória. Gosto de ouvir teus sonhos, tua falácia, teus desatinos. Gosto de ouvir teus carinhos, teus suspiros, teus gemidos. Gosto de ouvir tuas explicações intergaláticas. Gosto de ouvir teus planos - simples ou demasiadamente complexos - e tuas ideias. Gosto de ouvir teu sorriso - porque teu sorriso tem um som que eu gosto. Gosto de ouvir tuas lembranças, tuas tristezas, tua infância. Gosto de ouvir teu silêncio. Gosto. Gosto do barulho do copo de whisky ou de coca-cola (aquela efervescência me agrada), do isqueiro acendendo o cigarro no meio do teu quarto escuro, de cada trago. Gosto do som do roçar da tua pele na minha. Gosto do teu barulho de ser. E ouço cuidadosamente cada movimento teu, porque preciso te capturar na memória, pra te ouvir quando faz frio, quando está longe, quando minha noite demora a passar. Então deixa eu te ouvir até o sono vir me buscar e me levar pro meio dos teus sonhos, até passar a noite e eu poder te ouvir de novo. Porque eu gosto. Simplesmente gosto.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

mar adentro

Somos dois. Um e um. Sem meios, pedaços, incompletudes. Somos imperfeitos. Desgastados. Cheios de defeitos. Loucos. Ávidos. Corajosos. Somos inteiros. E nos encaixamos alucinadamente em nossas imperfeições. Tudo faz sentido, sentidos. E fazemos barulho, fazemos silêncio, fazemos carinho. Somos deliberadamente cheios de nós mesmos. E já éramos antes do tempo contar, antes de nos sabermos gente, antes mesmo que o mundo desse uma volta completa. E quero, assim, com toda a petulância que cabe em mim, sorrir marés cheias até cansar o tempo. E se o tempo não existe, que o agora se estenda mar adentro, a noção mais bonita de infinito...

terça-feira, 21 de junho de 2011

modo imperativo - convite ou recomendação

Corre desse mundo. Foge. Volta. Fecha os olhos. Não sai. Entra. Entra aqui. Não pergunta. Responde. Não fala. Beija. Sente. Ri. Ri de ti, ri de mim. Não olha. Vê. Não pensa. Faz. Vive. Crê. Crê em nós. Sopra. Venta em meu rosto teu nome. Navega. Navega-me. Navegamos.

domingo, 5 de junho de 2011

pequenas considerações sobre reencontros de amor e coisas afins

Sempre achei que o amor causasse o tempo todo a sensação de montanha-russa. Que fosse necessário e imprescindível a presença da estranha fúria amorosa e adrenalítica que envolve os amantes. Mas de repente - não mais que de repente - torna-se suavidade. Palavra macia. Tem gosto de brandura, de céu, de algodão doce. É sem medo. Não tem limites ou castrações. É inteiro. Somos inteiros.
Aos quinze anos estávamos tão cheios de inseguranças e incertezas que passamos a nos olhar a uma certa distância. Eu passei a te olhar à distância. Eu já era uma mulherzinha - ainda em construção - mas tão repleta de vontades que só conseguia ver o que meus impulsos juvenis e hormonais deixavam óbvio. 
Agora penso - e me embasbaco imaginando - que só continuei escrevendo por tua causa, porque naqueles tempos você me enxergava por trás do rosto de menina levada. E você me dizia escritora. Não sei se realmente me tornei uma, mas a paixão pelas letras começou contigo, naquela época, por causa de George Orwell e dos teus suspensórios - pode parecer estranho, eu sei, mas são coisas que só eu entendo.
Aos dezessete, aquela carta com papel timbrado do teu pai me encheu de alegria - como se meu peito estivesse sendo visitado por foliões em pleno carnaval. E ali você disse que me amava pela primeira vez - mesmo sem ter escrito exatamente isso. [essa carta ficou guardada naquela pasta de desenhos que eu tinha no colégio, no meu pequeno templo de "sacralidades" e está aqui agora, na primeira gaveta desta mesa]
Essa noite, quase dormindo, você me dizia que o que mais te encantava quando eu tinha quinze anos era o meu jeito de andar, de ser acelerada, de fazer tudo a 500 km/h. Acho que não mudei tanto nesses aspectos. A grande diferença é que fui andar pelo mundo, ver a vida, saber mais de mim, me encontrar e desencontrar um bocado de vezes para poder reencontrar você. Para poder parar de brigar com o tempo. Para sentir calma. Para amar de verdade. Agora. Você.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

calendário

Vem, olha o calendário - olha o meu calendário. É noite de lua. É dia de maré alta e me encontro transbordada no revés do tempo atravessado e sem juízo. Atomizo o desvio, a dúvida, o medo. Pressuponho atrito, verdade, quimera. [Des] alinho-me. Liquefaço-me na cor que derramas dos olhos, no que não me dizes em sussurros bonitos e nas perturbações labirínticas e extasiantes. Confino-me no invólucro que te cobre os braços e me liberto pelos teus poros - porque te deixo impregnado e transpirante. E tu me reabsorves na ponta da língua-fera, embebedando-se de maresia lunar e violenta. Tu, homem do mar, me faz crer infinita, azul, fértil, ondulante. Então vem depressa e olha de novo o calendário - é nele [e em ti] que encho minhas marés.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

os nomes

para H.

A cada nome que dou ao que sinto, ao que me fazes, balbucio um outro nome - o teu nome - no meio da minha bagunça e das minhas verdades. E te arrasto em minha correnteza doce e abundante, entre tempestades e sorrisos e loucuras. E me recrio em línguas e pele e me faço gato. Gemes desejos. Estremeces beleza. Concretizas tuas ameaças não proferidas em língua - somente em linguagem - e me mostras que a dor morreu antes que me ferisses a carne, antes que me dissesses nomes que não ousarias em outros tempos. Sentimo-nos renascidos novamente dessa puta parideira chamada Vida, tentando dar nome ao que acaba de acontecer, às marcas que me deixas no corpo, ao sono que se perde no encontro, ao que dizemos em silêncio. E em meio a tudo isso, todos os nomes parecem pequenos, espaços finitos, desalinhos. Sigo, então, oceânica. E tu, marujo, navega-me agora sem bússola, guiando-te apenas pelas estrelas.


segunda-feira, 25 de abril de 2011

Germina-mundo

Se te chamo mundo,
me respondes vida,
valsa, verso.
Se te calo a noite
me devolves dia,
luz, miragem.
E de sorrir o mundo
e calar a noite
germino caule imaginário
gerânios assimétricos
em jardins suspensos
e incertezas vingadas
da grandeza de sorrisos
escondedouros de sombras e palavras.
Sorri mais, mundo,
e te abre em flor antes da primavera
no meio do outono que pousa
sobre as asas do tempo e do querer,
antes que parta a vida,
antes que cale o verso,
antes que termine o dia.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

antes da saudade

Enquanto o mundo rangia feito louco pela manhã caótica, minha boca confessava sozinha um desejo que salivava balbuciando um pulsar contente e não menos caótico que o vai-e-vem de passantes, automóveis, vidas.   
E o dia azul me chamava para o centro de outra turbulência, uma tempestade que me varria a razão e me fazia só sentidos - porque o corpo inconsciente caminhava em direção à paz pelo avesso, aos tremores, às erupções, às devastações que me aquietavam ao fim de tudo. E as relações de causa e consequência passavam a não existir, pois a razão havia sido tomada de assalto por uma coisa sem nome bem no meio do peito - um bicho que me devorava de dentro para fora e expunha a carne ao mundo, borbulhando vida e um bocado de flores. Enfeitava-me mais do que havia por dentro porque por fora havia apenas pele e pudor. E se pudor me faz incompleta, então olha meu sangue, minha carne, meu coração, minhas dúvidas latentes expostas - olha o que eu sou de verdade. Agora tu me vês assolada pelas horas, por um tempo indigesto e cruel. Mas agora tu me tens mais do que nunca, mais do que as certezas dos amantes comuns, mais do que a espera, mais do que as horas não contadas. E eu me desfaço em tua cama como um pequeno vulcão em erupção, uma desconhecida de longa data que te beija os olhos antes de partir, depois de urrar, antes de sentir a beleza da saudade que sempre me deixas...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

- Boa noite, A.
- Boa noite, B.
- Boa noite, V.
- Boa noite, R.

Essas camas enormes de hoje em dia...

domingo, 17 de abril de 2011

el nido vacio

O ninho vazio
o silêncio da noite esquecida
entre meios, fins e adeus
jardins outonais
de flores secas caídas
a distância entre voz e ouvido
entre mão e pele
entre toque e desejo
maçãs, dedos, lábios*
brevidade e querer
carne, queimor, destempero
em dizeres alheios
- assombro -
olhos negros tristes
e saudade desconhecida.


* Tomei a liberdade de roubar as maçãs de Rubens Milioli.

sábado, 16 de abril de 2011

Para ganhar o mundo - adeus à infância

Esqueceu-se do nome
o menino pobre.
Esqueceu da lida,
dos versos, do dia,
esqueceu-se do dom.
Correu atrás dos cães,
das folhas caídas,
dos restos
- mordeu a língua.
Minguou feito lua.
Brincou no quintal de casa
e esqueceu o mundo.
Corre, menino pobre!
Corre na frente do tempo,
na frente do mundo,
na frente da vida,
porque senão
tempo, mundo e vida te deixam pra trás.
Corre na frente, menino pobre,
porque é hora de te tornares homem.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

florescer

Ele chegou antes que o sol beijasse a janela. Entrou sorrateiro por baixo do lençol para me [des]encontrar nua. Estava nua em todos os sentidos - sem roupa, sem pensamentos rápidos, sem proteção. O sotaque do Alentejo brindou meus ouvidos balbuciando aquelas duas sílabas carinhosas que só faziam sentido se ele as pronunciasse.
- Diz que me ama, Nina...
Sentia raiva por ele ser tão intolerante, tão arrogante, tão politizado, tão bonito. Mas havia algo macio naquela muralha aparentemente impenetrável. Havia um lugar nele que só eu conhecia - e ele odiava admitir isso. Era detestavelmente sarcástico quando desejava testar meus limites - mas aprendi a reconhecer pequenos sinais que denunciavam suas intenções [quaisquer que fossem].
Ainda estava magoada por três ou quatro palavras mal empregadas na noite anterior. Ele conseguia me machucar fundo, me afetar de um jeito que só afetam as pessoas de extrema importância. Resmunguei qualquer coisa que simulasse desinteresse. Mas não havia como fugir da voz, da presença, da perturbação vulcânica que ele causava quando me invadia com o cheiro do cabelo comprido, da barba mal feita, do cigarro insistente. Mais uma vez as pequenas ranhuras eram deixadas de lado, entre juras de amor e violação amorosa consentida. 
- Diz que me ama agora, Nina... pois foi assim que sempre quis te fazer um filho...
E meu ventre sorriu enquanto o sol lambia as cortinas do quarto.

sábado, 9 de abril de 2011

aqui, no tempo presente

Olhei com tanta frieza aquela foto que me assustei. Vi-me tão longe do lugar onde estávamos que o terror me tomou todo o corpo - horror no coração: horror porque nada na memória que aquele rosto me traz me melindra, me aquece ou excita. De repente não lembro mais do cheiro, do movimento que a língua fazia na minha boca ou de como era o sexo. Como as pessoas podem esquecer essas coisas? Sinto-me um monstro insensível. Talvez eu não seja um monstro - talvez o fim das coisas esteja mesmo fadado ao esquecimento. No fundo, é um pouco engraçado. Não, não é insensibilidade. Na verdade, tudo é tão bonito do lado de cá do jardim que não me importa mais nada que houve ou que possa ter doído em algum momento. Uma das coisas boas de ser quem eu sou - e como eu sou - é a velocidade com a qual "apego" e "desapego" acontecem. E saber colocar as coisas em tempos certos e lugares mais certos ainda - o passado precisa reconhecer seu lugar. E agora, de peito aberto e cabelos ao vento eu digo: como é bom estar sempre no presente! Aqui eu me sei, eu me sinto, eu me vejo. Aqui eu sorrio.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O que será (à flor da pele) - Chico Buarque



O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz implorar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita


O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite


O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
E todos os suores me vêm encharcar
E todos os meus nervos estão a rogar
E todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz suplicar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

When the wild wind blows - Iron Maiden

terça-feira, 5 de abril de 2011

inquietação 1

cala
porque há barulho nesse recinto
e preciso do silêncio da tua voz
reverberando na calada da minha memória.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

sem título VI

odeio se me questiona
se me fere
se me fecha os olhos
e me abre essas portas do corpo
se me escancara
e me rouba palavras
fôlego
sofrimento
odeio se me navega
e me revira as marés
e me cria desmesuras
porque há diferença
- tanta diferença -
nesse reflexo macho de mim
porque te olho e me vejo linda
- violentamente linda -
e te procuro onde some
e te acho nessa lonjura de fim
onde há ausência
onde há segredo
onde há miséria
onde há saudade
desse futuro mal vingado
mal parido
que me sorri
com dentes gastos
e me viola
me corrompe
me sucumbe
bem no meio desse mar de sal
- no lugar do tempo atravessado -
no meio das coisas não vividas
lugar de querer contínuo
destino breve e imantado.

domingo, 3 de abril de 2011

fome

cães e lobos aprazem esse meu gosto
- mesma medida e proporção -
porque sou cruza estranha
interespécie
coisa de lince e serpente
nascida do ventre de Vênus
mestiça imperfeita e sem molde
fera que espreita, espera
o sinal de caninos saltados
nesses dias em que se mata a fome
com um tanto de morte
para satisfazer o que há, enfim, de vida,
de pulsar, de querer,
e voltar para a solidão
a que me condena o próprio corpo.

quinta-feira, 31 de março de 2011

janela

grita teu nome
teu dia
tua sombra
diz-me teu tempo
tua vontade
desejo
faz-me deidade
entidade
coisa
ao que teus olhos pedem
ao que teu corpo implora
quando teus joelhos tremem
e tu ordenas
pedido
perdido
me olha pela imagem no espelho
e me descobre estranha
ferida
crua
grita meu nome em silêncio
de sílabas marcadas e tensas
e encaixa teus soluços e dramas
em minha garganta;
olha a janela de flores
- teu jardim suspenso -
porque amanhece o dia lilás
iluminando a pedra fria
daquele outro mundo
do outro lado
do lado avesso
avesso do canto do quarto.

quarta-feira, 23 de março de 2011

maresia

Surto
em meio à espuma espessa
ao sal ardido
à distância
encontro-me em paz estranha
com os pés na areia
com o corpo n'água
e pelo avesso
salteada de ardências
e arrebentação
sem ser palavra alguma
sem ser coisa
sem ser tempo
inflamada
com a salmoura que me lambe os lábios
que me tinge o corpo
que me põe de lado
e me sangra a ideia
e me fere a carne
e cicatriza
alimenta
alcooliza.
Surto -
mareada e patética.
Transbordo maresia
e me abro à espuma efervescente
que me devora as coxas:
é o mar que me faz de puta
e me fode em tua ausência.

terça-feira, 22 de março de 2011

confissão - Clementine e o segredo do quarto da árvore

Clementine aventurou-se novamente no quarto da árvore - a boca tremia e a pele descascava-se inteira, deixando a alma em evidência. O claustro ainda tinha o cheiro que ela havia deixado antes - madeira ralada e sexos em atrito. Precisavam de poucas palavras - de palavra alguma. Sentia-se um pouco criminosa, pois invadia furtivamente o pequeno mundo que começava e acabava dentro do quarto e depois partia. Não perguntava nada, apenas sentia o corpo sorrir para dentro e sorria de volta para ele. Estava permissiva e incrivelmente aberta. Experimentaram ardências e quenturas - havia muitas cores em todos aqueles gostos e texturas. Poderiam reinventar o que os homens chamam de arte - porque eram deuses e aos deuses tudo é permitido. Clementine era, então, uma mulher parida dela mesma - renascia do seu próprio ventre. 
Clementine partiu novamente - foi compartilhar seu segredo à distância, tendo a lua como testemunha grave e branca da confissão de amor que deixara no corpo surpreso do quarto da árvore. E Clementine retornou:  Clementine retornou para ver de perto os estragos que havia causado - porque era devastadora, petulante, descarada. Definitivamente, não ligava para as tempestades - embora tivesse medo delas, vez ou outra atrevia-se a se banhar no que lhe era ofertado.

quarta-feira, 9 de março de 2011

o amante

Clementine entrou escorregadia naquele quarto. O mundo emudeceu nublado e cinzento do lado de fora da brancura. O tempo não havia realmente passado - porque sabia que era apenas um conceito não-sentido usado pelos normais para criar justificativas e finalidades ansiosas. Clementine sentia apenas que estava repleta de um tempo perene, incessante, sem pontuações, justificativas ou paradas. E tudo fazia muito sentido porque não buscava sentido nas coisas - encaixes perfeitos de vícios tortuosos e sorridentes. E sempre havia continuidade do ponto onde haviam parado, como se tivesse acabado de se despedir daquela cor que adorava nos olhos do outro. Era sempre um estado de ímpeto, de calma, de desejo - o estado de todas as coisas, de todos as maneiras. Despia-se mesmo antes de estar completamente nua, sem palavras ou conversas prolongadas. Sentiam-se antes da proximidade dos corpos. As peles sorriam, esperançosas e acesas - iluminavam a árvore, a parede, o dia. Deslizou lentamente para junto do outro corpo, feito serpente, feito gato, feito bicho bonito. E então não havia mais paredes, não havia mais teto, não havia mais árvore, não havia mais pensamentos. O foco estava nas sensações de pele, de resposta imediata do seio ao toque, de línguas, de pulso vibrante abaixo das cinturas, onde entendiam-se os sexos e encaixavam-se os desejos nunca contidos dos sempre-amantes. Ele se acolhia trêmulo no refúgio quente e macio de Clementine, longe de todas as neuroses do resto do mundo. E Clementine o recebia de coxas-portas abertas - anfitriã-meretriz amável e molhada. E seus orgasmos começavam no momento em que seus sexos se cumprimentavam em línguas, antes de qualquer invasão, antes de qualquer barbárie. Era um gozar mesmo sem gozar, um gozar permanente de delícias de pele e amor. Um gozar de ais gemidos e sussurrados e contidos. Era um gozar que Clementine só experimentava naquele quarto - porque aquele quarto era qualquer lugar onde o outro estivesse -, naquele corpo, naquele tempo que só existia quando estavam em transe magnético. Não havia maledicências - as más palavras apenas exprimiam o jorrar orgástico e sorridente dos corpos. Os medos foram expulsos definitivamente - havia sustos deliciosos e entregas consentidas de corpo inteiro [um desejo de violação e conquista de todos os cantos que o amante pudesse tomar]. E o prazer arrastava-se e passeava por sensações e choques térmicos avassaladores propiciados pelas línguas perversas dos amantes - o frio doce tornava-se quentura instantânea e torturante que vertia em sal líquido na boca de Clementine. E as pequenas confissões nuas e suadas proferidas pelos lábios em estado de graça enchiam o peito da pequena de sorrisos e desejos.

Clementine levantou-se com o dia. Vestiu-se e beijou o sorriso e os olhos adormecidos do outro, dizendo-lhe segredos e fazendo confissões que ele não lembraria depois que acordasse - ele despertaria apenas com a sensação da paz turbulenta e sexual que Clementine deixara no quarto, nos lençois, no cinzeiro. 

Clementine ganhou a rua. Sentiu saudade. Desejou loucamente que ele não partisse para nenhuma terra distante.

sábado, 5 de março de 2011

That smile leaves me weak. That laugh makes me believe i am ice cream and i try to stand still. I love the way you make me hate you. I like it when you scratch my world, when you drive me out of my head. I love when you call me bitch, when you say you'd love to hurt me and you love me after that. Our crimes are perfect. Our sins are even more perfect. Nobody knows them. Nobody really knows us.

quinta-feira, 3 de março de 2011

citizen of the world

Sou um carregamento de inquietações. Não consigo conviver com gente pequena, de mente pequena, de desejo pequeno. Não consigo viver com mentes limitadas - gente sem opção se agarra à qualquer coisa. 
Por isso sou cidadã do mundo: não me agarro a nada. Pego carona no vento. Não crio raízes. Não vivo com medo - e quando o medo me assola, não me petrifica. Pelo contrário: me faz mover. Porque "longe é um lugar que não existe"*...


* Longe é um lugar que não existe é um título de Richard Bach. Confesso que não li o livro, mas adorei o título... :)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

saída de emergência

não há rota de fuga
ou saída corrediça pelas escadas
não há escadas
ou plano de escape
há uma pequena fresta
por onde passa a luz
ou por onde se vê a sombra
uma ranhura
de se passar a língua
- fresta escura -
há uma direção
e todos os sentidos
fluxo desatinado
e pulso efervescente:
saída de emergência ao centro
- minha bússola desencontrada.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

paraíso

amanheço lilás
germinada
enquanto dormes teu sono bonito
com esse meio sorriso inconsciente
de sonho
de gozo
de vinho
e te desenho com meus olhos
te verbalizo
porque teu sono me enche de paz.

amanheço simples
inteira
mas deixo meu cheiro no teu mundo
meu gosto nesse sorriso
onde sorri sussurros
gemidos
palavras sujas
e tempestades avassaladoras
que trazem a paz
do teu paraíso encarnado
quando repousas teu amor
sobre meu templo de carne.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Fodi todos os poetas que conheci
todos os músicos que ouvi
todos os artistas que apreciei.
Pulei na cama de Drummond
de Vinicius, de Bocage,
Henry Miller, Sartre,
Kandinsky, Picasso.
Trepei com todos os filósofos que me desejaram
com todos os boêmios que me alvejaram
com todos os perdidos que me quiseram.
Homens complexos, sempre complexos,
desatinados no pensar livre
abandonados por suas razões sórdidas
- ou desafiados por elas.
Sou puta verborrágica - disse-me aquele filósofo
que nunca me tocou a pele.
Sou meretriz de verbos e vícios e letras ensanguentadas
- alma desgarrada de pedra e vidro e algodão.
Sou musa torta e torpe e cretina
sou vários nomes, vários atos, várias línguas.
Sou essa carne teimosa, alcoolizada, vadia.
Sou Nina, Marie, Clementine, Juliette, Hermínia.
Sou a presença, o presente, o passado, o esquecimento,
esse fogo que queima louco, fundo, forte
essa lava, essa fluidez de várias sílabas,
esse medo do escuro.
Sou o amor total.
A canção.
A palavra maldita.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

reflexo

Há uma atração pelo inusitado que me assola. 
Esbarramo-nos por acaso, porque o universo decidiu que era tempo de conspirar a favor. Não há coincidências. Poderíamos ter apenas falado de revoluções, política, ou sobre indecências nas cinco línguas que falamos juntos. Gosto quando escrevemos nosso livro, quando completamos - sem querer - o que o outro havia escrito. Gosto quando leio teus pensamentos - confesso que tento esconder os meus. Mas o que me atropela mesmo é esse teu sotaque bonito, o cabelo em desalinho, os traços retos do rosto, o corpo sem pelos. Adoro nosso gosto pelas mesmas coisas - o péssimo gênio compartilhado. Gosto da intelectualidade, da virilidade, do sexo. Gosto quando dizes que me odeia, louco para me amar outra vez. Gosto quando dizes que sou a mistura de anjo e puta, quando confessas que das dezenas de mulheres que passaram pela tua cama, sou a melhor, a mais livre, a mais entregue - porque sou bruxa e sei predizer teus desejos. Gosto do jeito que você me machuca. E você, sádico confesso, me diz que na primeira vez que pousou os olhos em mim seu desejo primal foi o de me machucar. 
Quando olho para você, reconheço-me - vejo-me no espelho. Você, meu alterego.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

antes, agora, depois

Amor é fácil. Difícil é amar. Porque amar é coisa de gente e gente é um troço complicado de lidar. O que deveria, então, ser doce, livre e leve, acaba se tornando pesado, desgastado, desgostoso. Muito disso acontece por causa das garantias que são exigidas pelos amantes, como se o amor estivesse pendendo em vitrines e pudesse ser comprado com cheques pré-datados.

- Promete me amar?
- Sim. Eu te amarei feito louca essa noite.
- E depois? 
- Amanhã quando você acordar eu não estarei mais aqui.
- Por quê?
- Porque amanhã é futuro.
- Mas o que tem isso? Você acaba de prometer me amar...
- Sim, eu prometi. Minha promessa está conjugada no passado, notou? Eu prometi num presente transbordado de desejo. Eu te desejei quando prometi. Eu te desejo exatamente agora - desejo feito louca. E quero que você me foda, que faça amor comigo agora, pelo tempo que durar. Porque não posso te prometer amor amanhã. Amanhã ainda não chegou e não posso fazer promessas ou previsões. Então eu te quero agora. Quero que você me ame loucamente agora também, como se amanhã não fosse chegar nunca...
- Você é louca... Toda mulher quer uma garantia de compromisso...
- Sim, eu sou louca. Mas não quero o que toda mulher quer. Não quero garantias. Quero exatamente o que você quer me dar agora - porque seus olhos estão acesos, sua boca me mostra os dentes e você me deseja de um jeito que me excita. Então, cale a boca e me beije logo... Porque enquanto falamos o presente vai passando ligeiro por nós, e começamos a viver o que era o futuro há alguns instantes... Corra, meu bem... Não quero que chegue logo amanhã...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

i am gasoline!

Tenho gosto pelos livres, libertários, libertinos... Essa carne não vai para os fracos de espírito, para os medrosos, para os amedrontados, para os racionais. Esse gosto de liberdade não vai andar na boca dos que falam baixo, dos que andam devagar, dos que têm medida para tudo, dos que fazem planos. Não quero calma, não quero calar a boca, não vou sentar direito. Quero é andar descalça e queimar os pés no chão quente! Não quero saber do futuro. Não gosto de hipóteses baratas ou filosofia de gente que vive escondida. Não gosto de gente que finge valentia, que finge bondade, que finge ser gente. Não gosto de hipocrisia. 
De resto, nada mais me move. O que é morno, se apaga. Quero chama: preciso de combustível, gasolina, fósforos!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

fundura

Vejo teus olhos e me faço perguntas estúpidas. Pergunto-me que cor eles têm. Pergunto-me que cores tu tens. E nessa de te descobrir, desenho tua boca para contrastar com os olhos - contrastes mais de linhas que de cores. E teu desenho vivo me assombra, me assusta essa porção do dia em que escureço o desejo flamejante e antagônico de terra de fundo de rio, onde derreto e despejo a argila dos meus olhos, minha cor incógnita que te enlouquece o juízo e te derruba e te faz querer o que foi lançado ao mundo. Sou o desconhecido mundo e tu és a cor sem nome que só existe em teus olhos. E tu espumas de raiva em meu útero e me beija a boca para me roubar o fôlego e um pouco da alma. Minha alma de rua te envolve em desapego desespero destemor. E teu medo coragem te lança de encontro ao meu muro meu mundo cimento feito de pele. E tu te fundes e me machuca me incendeia me esfria me abandona depois do gozo. E me perco labiríntica nessa tua imensidão - teus olhos me tragam pro fundo asfixioso dessa cor hipnótica. Cubro teus olhos. Volto à superfície.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

wicked things...



The world was on fire and no one could save me but you
It's strange what desire will make foolish people do
I never dreamed that i'd meet somebody like you
And i never dreamed that i'd lose somebody like you

No, i don't want to fall in love
(this world is only gonna break your heart)
No, i don't want to fall in love
(this world is only gonna break your heart)
With you 
(this world is only gonna break your heart)

What a wicked game to play, to make me feel this way
what a wicked thing to do, to let me dream of you
what a wicked thing to say, you never felt this way
what a wicked thing to do, to make me dream of you
...

castigo

Perdoa-me se te tomo de assalto
- sem escrúpulos -
se desfaço essa névoa em teus olhos
- se te derreto -
se procuro um verbo, um tempo, uma cor
se conjugo coisas erradas, se me dobro
perdoa se te desdenho,
se finjo que te abandono e te procuro
perdoa se digo que te amo e depois calo
perdoa se sou combustível e apago
perdoa meu silêncio, minha angústia, meu medo
perdoa minha falta de caráter
meu excesso de loucura
minha ferida de desejo
perdoa se sou estranha
se me enfio no meio de tuas coisas
se te machuco
se choro
se agonizo tua ausência
se alcoolizo minha miséria
se maldigo teu nome
se mordo teus livros
se ouço tua música.
Perdoa minha falácia
meu vício
minha inconstância
a voz embargada
que diz em silêncio
o que os olhos
já se cansaram de saber.
Perdoa-me se te fodo em pensamentos.
Perdoa por querer te rasgar a pele
te cuspir maldades
te levar pro espaço.
Perdoa-me.
Castiga-me de novo amanhã.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

ainda no quarto 214

Foi no quarto 214 que se apresentaram. Como se estivessem começando ali o que havia sido antecipado de outra forma. A intimidade espalhava-se pelas paredes feito tinta, galopando alucinada pelas veias. Ele dizia o quanto a desejava cada vez que lhe acertava o rosto com força, cada vez que sentia como ela era macia por dentro, como era quente, como ficava molhada com aqueles castigos de amor. E a fazia de puta e chamava de anjo naquele joguete de horas infinitas de gozo e garganta ardida de grunhir-gemer-gritar. E ela se abria com qualquer possibilidade de proximidade do meio de suas coxas, como se estivesse condicionada a obedecer ordens de coito a todo e qualquer instante. Queria uma definição para aquele sentir sem nome, para aquela fúria vermelha e encharcada e dolorida e vulcânica.
Desejava - no meio de seu transe gozoso psicótico - que ele fosse extremamente cruel - desejava que ele a matasse impiedosamente na cama do quarto 214.
Queria morrer no quarto 214.

Anaïs - parte VI - o dia

A luz do dia alto a acertava em cheio na cama. A janela do quarto estava aberta e o barulho da rua anunciava ser hora avançada. "Merda de dor de cabeça..."
O dia estava insuportavelmente claro e Anaïs precisava cumprimentar a claridade aos poucos, enquanto colocava os pensamentos tortos em ordem. "Eu não comi porra nenhuma ontem à noite", reclamava. Ele não estava na cama.
Levantou-se e andou nua pela casa, tentando não fazer barulho - estava assustada, sentia medo daquele homem estranho. Realmente não lembrava seu nome - tinha quase certeza de que ele não havia dito. Não que sua cabeça funcionasse bem, mas lembraria o nome. Ele não estava no apartamento.
Procurou as chaves, foi até a porta. Ele havia sumido sem deixar vestígios. Aliás, havia deixado vestígios, sim - no corpo, na merda de cabeça perturbada de Anaïs, nos lençois, na taça de vinho ao lado da sua.
"Esse filho da puta fodeu a porra da minha cabeça e foi embora... "
Procurou qualquer sinal de que talvez ele voltasse, um telefone anotado, um bilhete dizendo "já volto", uma carta de amor. "Por que pensei em carta de amor?" A cabeça latejava. Precisava de café. O peito saltava, a boca estava seca, as mãos tremiam - estava ansiosa, desesperada, apaixonada, sentindo ódio mortal. Às vezes pensava em morrer. Lembrou-se dos fantasmas e correu os olhos para o canto da sala. Ainda estavam lá. Conferiu tudo e nada estava fora do lugar. Ele não sabia do seu segredo. Mas também não sabia quem ele era ou o que poderia estar escondendo. Era um intruso e invadia a intimidade de Anaïs com uma autoridade inegável, como se a visse pelo avesso, como se pudesse antecipar seus pensamentos. Sentia medo de pensar perto dele, medo de que ele ouvisse o silêncio de suas maquinações absurdas e doentias. Queria matá-lo. Queria silenciá-lo para que não pudesse mais surpreendê-la ou fazer com que se sentisse rechaçada, rejeitada, abandonada. Queria que ele morasse dentro dela. Acendeu um cigarro. Lembrou do que havia comprado na delicatessen.
Enrolada no lençol, abriu uma garrafa de vinho e levou para o quarto. Colocou as sacolas que estavam na geladeira sobre a cama desarrumada e cheirando a sexo. Comeu. Acendeu outro cigarro. Voltou para a sala e Al Green a esperava, louco para cantar para ela. Sentiu-se culpada por tê-lo trocado por outro homem na noite anterior. "Você não me abandonaria, não é? Eu sei, querido... Perdoe-me..."
E tudo parecia estar bem novamente, com a voz conhecida e sempre mansa a fazer melódicas confissões de amor no meio do dia. "Eu amaria Al Green...", sussurrava, louca. Estava vazia. Com exceção do barulho dos carros do lado de fora e da música do lado de dentro, todo o resto parecia desastrosamente silencioso. Pensava nos seus pecados, nos seus crimes de ser. Conhecia-se e se estranhava na mesma proporção. Mas não sabia de onde vinha aquela dor, tinha medo de saber. Porque gostava de esquecer das coisas que maltratavam sua memória, sua carne, seu estômago sempre prestes a derramar os restos amargos de alguma dor ou descontentamento - Anaïs era cheia dessas coisas. Sabia, no fundo, que nada exterior a afetava a ponto de torná-la miserável, mas gostava de imaginar que seus sentimentos vinham exclusivamente do que os outros ofereciam - e não de sua própria miséria, de sua própria debilidade, de seus próprios vícios e incompreensões. Sentia-se infeliz naquele instante e culpava o outro por ter entrado aos solavancos em sua vida. Não conseguia respirar. Estava à beira da histeria. Estava exagerando novamente. Sentia-se sozinha. Estava sozinha. Queria vomitar o mundinho pequeno. Queria não sentir saudade. Queria que ele não fosse indiferente. Queria mais um pouco de vinho. Era cretina em seus pensamentos.
O relógio marcava duas da tarde e Al Green já havia se calado. Restava, então, o barulho dos carros. E o silêncio de dentro do seu mundo. E isso fazia os ponteiros correrem mais lentos, como se estivessem girando na lama do tempo. "Preciso pintar o apartamento", pensou. "Preciso mesmo é de um copo de morfina ou de veneno, porque o vinho já não me anestesia mais...". E todas as inutilidades e futilidades da vida socavam as horas do dia partido - porque algo havia se perdido no meio da sua crise escaldante.

[continua]

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

room 214

Aconteceu no quarto 214. O sol ardia do lado de fora e a vida queimava do lado de dentro - dentro do quarto, dentro da boca, longe do mundo. Corpos emplastrados de loucura. Sal balsâmico a correr pela pele. Piso molhado. Carros na rua. Silêncio ensurdecedor de entrega masoquista e destemperada. Desrazões aladas a rondar as almas sem juízo, sem pudor, sem culpa. Choro contido de gozo. Indecência das horas - morte do tempo. 
Aconteceu no quarto 214.

do esquecimento

Como velhos amantes, disseram coisas intempestivas e se magoaram no meio da tarde de domingo. Como velhos amantes, deixaram dores, ciúme e desejos represados apunhalarem a paz do amor intranquilo de noites acesas, de quereres ferozes sem querer. Rasgaram-se. Cuspiram segredos. Estranharam-se. Reconheceram-se na raiva de amar. Fluidificaram suas angústias. Esqueceram a dor. Amaram-se novamente.

domingo, 30 de janeiro de 2011

quero mais que tudo...




Um Amor Puro
Composição: Djavan


O que há dentro do meu coração
Eu tenho guardado pra te dar
E todas as horas que o tempo
Tem pra me conceder
São tuas até morrer


E a tua história, eu não sei
Mas me diga só o que for bom
Um amor tão puro que ainda nem sabe
A força que tem
é teu e de mais ninguém


Te adoro em tudo, tudo, tudo
Quero mais que tudo, tudo, tudo
Te amar sem limites
Viver uma grande história


Aqui ou noutro lugar
Que pode ser feio ou bonito
Se nós estivermos juntos
Haverá um céu azul


Um amor puro
Não sabe a força que tem
Meu amor eu juro
Ser teu e de mais ninguém
Um amor puro

sábado, 29 de janeiro de 2011

because the night

janeiro

Queria sair e ver a neve. Era janeiro. Não nevava. Deixou a maçã vermelha sobre a mesa e foi à janela. Simplesmente não nevava. E seria extremamente necessário que nevasse naquele momento, porque ela queria que o inverno chegasse em janeiro - mas era verão naquela terra. Mas mesmo que o inverno viesse fora de época, não nevaria ali. Poderia desejar as tardes outonais, mas imaginava os amanheceres do inverno como em sonhos infantis, com o céu de aurora boreal da Nova Zelândia. O verão esfregava-lhe a liberdade na cara, mas desejava mais que tudo a paz nevada do inverno. Mas não queria que o inverno durasse para sempre: dois ou três dias, talvez. Depois o mundo poderia voltar ao normal.
Voltou à mesa e pegou a maçã vermelha. Cravou-lhe os dentes e saiu à rua - porque a maçã estava doce e era manhã ensolarada de domingo. Era janeiro de maresia.

[e não é que as boas surpresas sempre acontecem em janeiro? coincidentemente, sempre em torno do dia 24... que vida, essa...]

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

diálogos que eu adoro - e outras considerações

- Saudade de você...
- E a despedida aquele dia?
- Foi péssimo. Despedidas não são legais...
- Você se segurou, não é?
- Uhum...
- Queria chorar?
- Uhum...
- Adoro esse "uhum"...

Às vezes a gente acha que se quebrou de um jeito que não vai dar mais pra juntar os pedaços todos. E que vai ficar craquelado e capenga pra sempre. Mas sempre há mãos que transformam em novo tudo o que tocam. E essas mãos sempre vêm acompanhadas com um sorriso, um gosto e um bocado de poesia. Há poesia em qualquer renascimento. Há amor em cada gesto - não o amor clichê de novela das 6, mas aquele que diz no silêncio tudo o quanto pode significar. E não há agradecimento que valha ou retribuição que compense. É de graça. Simples assim.


Sorriso [André Al Braga]

Fonte: http://mundoid.blogs.sapo.pt/


I

Se meu olhar muda
E minha boca muda
Muda calada
E toda minha pele grita
Uma alegria desconcertante
Em arrepios
Sussurra espasmos

Se o resto em volta muda
E meus ouvidos mudam
E meu corpo todo muda
Então sorrir é um orgasmo

II

Num sexo sem toques
Meu corpo todo
Sorrindo
Goza
A felicidade
De pensar-te

III

Na orla do lábio
Caminha o sorriso que
Eufórico
Corre
Pela areia do tempo
E mergulha
Na felicidade do mar

IV

Na música do sorrir
Os acordes são maiores
E todas as claves
São de Sol

confissões

Ela se sentia um pouco ridícula por estar com as vísceras tão expostas, mas a pequena confissão do outro lado causou-lhe a mais bela comoção. Então, compreendeu: expunha-se na medida em que via, também, a outra carne sangrar...


quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

das horas da morte

Ela estava lenta; lenta e ácida. Desejava morrer novamente - já havia morrido tantas vezes, que o corpo havia acostumado ao martírio dos 5 segundos de morte não planejada repetida exaustivamente e bem aceita dos últimos dias. E sua lápide era pequena demais para o mundo inteiro que precisava ser vomitado, contado, exposto. Estava sendo descascada e a parte de dentro era mais doce que o resto, mais macia, mais pulsante. Aquele mundo de lava dançava em espasmos no salão sem plateia. E a moça vibrava no rosa pálido dos lábios e no vermelho caótico do sexo. Vibrava de estranheza - desconhecia o corpo tão intimamente que conseguia surpreender-se a cada repetição de gestos. E as sílabas (re)cantadas (re)gemidas (re)tocadas dançavam diante dos olhos, feito serpentes - coleantes, enfileiradas, irônicas. Estava suicida, nua e extremamente suicida - calculava a distância - proximidade -, duração do sofrer e tempo do impacto - a sensação quente e a delícia dolorosa que o sangue trazia quando borbulhava dentro dela, em erupção feminina e tortuosa. Intensidade - um bocado de sentidos sem nome que a assolavam em meio à normalidade das horas da morte.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

do silêncio e outros calares

Aprende meu silêncio em tua boca com os riscos feitos da ponta da língua, no sal da carne, no suor da noite,
do dia, madrugada insone. Revela meu silêncio de segredos contidos, de amor reprimido confesso, de violentas investidas e canalhices de alcova - curra consentida e doçuras milimetradas em dores de amar. Versos inacabados grafados em vermelho na pele. Esconderijo à luz do dia. Pulso elétrico - seio eletrificado. Falas, falo, vulva. Desmesuras de amor sem nome de amor, de amor não dito, de amor calado e sentido no meio da tarde - partida. Porque o corpo ainda grita uns assomos de rendição total, de desejo de retorno, permanência - moldura nova dessa nossa cena em movimento contínuo: idas, voltas, volta...
Volta.



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

sem título IV

paz acesa de felicidade tardia
e rascunho mais que mal feito
de um corpo de esquecimentos
repleto agora de futuro-mais-que-presente
morte matada do pretérito-mais-que-perfeito
onde ninguém fizera mais nada
e o passado do passado jaz em silêncio
mudo
torto
só.
o Corcovado me acorda pro mar
e minh'alma vadia esconde-se em território inimigo
no meio do meu mundo de sal e areia
no meio do meu corpo sem pele
- sou só carne e alma -
dentro de mim, dentro de nós
porque deixo-me fragmentada em ti
em aroma, sorriso e saliva
nesse querer mais que amar
nascido no desatino rosa-laranja da Guanabara
nesse sentir mais que pensar
meu silêncio verborrágico
dentro do teu gerúndio bonito
ditado em desejo e língua muda

- suavidade do modo infinito.

domingo, 23 de janeiro de 2011

sobre a memória poética

"Amamos a bela cena antes de amar a pessoa. Por isto que Santo Agostinho dizia, em suas Confissões: 'Antes que te conhecesse eu já te amava.' Somos amantes muito antes de nos encontrarmos com a mulher ou com o homem que será o objeto do nosso amor. Somos como a criancinha que já ama o seio mesmo antes do primeiro encontro. Sua memória poética sabe que ele existe."
[Rubem Alves]

Sorrio, boba. Tu me perguntas o que me passa pela cabeça e eu não te conto. Não penso em nada, na verdade.  Estou sentindo este instante, este fragmento do tempo - este canalha que nos afastará em breve. Sorrio dentro do teu sorriso, como prometido antes do encontro. Digo em silêncio que te quero - porque sei dizer muito em silêncio. Tua voz murmura músicas dentro da minha boca, de pernas enroscadas com as minhas, de corpo grudado no meu. De olhos vidrados, me dizes que pareço menina linda quando meus olhos enormes viram pequenos rasgos no rosto - olhos apertados de amar. Tua promessa de beijos intermináveis é cumprida. O mundo parou. E aquelas paredes ficaram repletas de sentires. A água lava os vestígios de amor do corpo, mas cheiros e gostos permanecem - assim como o desejo -, ficaram gravados em minha memória poética
Eis que criei minha cena de amor.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

mais uma dose [repostando]

Mais uma dose. Ele tossia compulsivamente enquanto ela gargalhava no canto urinado do quarto imundo. Aqueles olhos que reviravam eram lindos e menos brilhantes naquele momento. Olhos de cor estranha, não sabia se pela sua vertigem ou se pela loucura passageira que a assolava. Era linda quando estava louca, quando estava alta, quando estava bicho.

Arrastou-se para o seu lado e passou o braço em volta dos seus ombros, buscando algo de consolo e calor. Tudo era frio e cinza e aquela gargalhada era a única chama a aquecer o seu mundo. Mas ela parou. Olhou para ele e o mandou para o inferno. Afastou-se. Começou a gargalhar novamente. 
Com a boca seca, ele se dirigiu novamente para perto dela, mas ela novamente o hostilizou, vomitando agruras e estranheza. Mostrou-lhe, então, a agulha. Ela sorriu apática, estendendo-lhe o braço. A euforia injetável pulsou forte na veia, espalhando-se em espasmo elétrico por todo o corpo, até o espumar da boca.
Ela era tão linda quando estava morta...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

sobre a linguagem

“A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem no outro. É como se eu tivesse palavras ao invés de dedos, ou dedos na ponta das palavras. Minha linguagem treme de desejo. A emoção de um duplo contato: de um lado toda uma atividade do discurso vem, discretamente, indiretamente, colocar em evidência um significado único que é “eu te desejo”, e libertá-lo, alimentá-lo, ramificá-lo, fazê-lo explodir (a linguagem goza de se tocar a si mesma); por outro lado, envolvo o outro nas minhas palavras, eu o acaricio, o roço, prolongo esse roçar, me esforço em fazer durar o comentário ao qual submeto a relação. Falar amorosamente é gastar interminavelmente, sem crise; é praticar uma relação sem orgasmo.”

[BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso] 

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

da cumplicidade

Ele me toca. Ele me toca bem no meio do meu inferno. Diz que me ama. Sorri. Faz-se de bobo e me chama de bebê. Em seu colo vejo a lua sorrir, a noite morrer no meio da confusão da rua. É carnaval fora de época, concluímos. Talvez nós estejamos em festa em meio a essa gente sem graça. E somos tão atraentemente imperfeitos que causamos inveja ao próprio diabo. E achamos bonitas as palavras bobas, as rimas mal casadas e a fúria das paredes mal pintadas da cidade. Rimos da indignação alheia. Rimos da pieguice melancólica que nos atraía naqueles desertos lotados. Rimos das nossas depressões, nossas náuseas, nossos pesadelos - que agora parecem divertidos. Falamos como se tivéssemos calado a vida inteira, numa ânsia de dizer mais do que falar. E dizemos muito mais em silêncio, nas linhas não escritas, nas páginas em branco, nos beijos calados e intercalados de vinho bebido da outra boca. Somos, de repente, cúmplices - cúmplices dessas loucuras cheias de alma que nos assolam madrugada adentro. Acabamos de fugir - juntos - de nossos purgatórios.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

domingo, 16 de janeiro de 2011

um bocado de amor e outras guerras

Com olhos de fúria rapto um pouco dessa paz indecente que me é oferecida. Não é uma paz muda, estática, insossa. É a paz turbulenta de uma presença em mim, mesmo quando a cena não está completa. Rapto o desejo de vida inteira - saliente dicotomia atemporal. O tempo desanda. O tempo para. O tempo corre. Balanço. Gangorra. Montanha-russa. Frio na barriga. Cachorro-quente. Passado. 
Não somos criaturas de cama: somos de escadas, chão, mesa, inferno. Nosso nirvana intimista. Uma desrazão qualquer. Um bocado de amor e outras guerras. Um arfar desmedido e assombroso, adorável circunstância amorosa. Um não-sei-o-quêde sentir e não prometer; apenas desejar. Uma alma dentro de outra em soluços orgásticos e doloridos. Inflamação. Presente. 
Um desejo surpreendente de planos não-feitos. É tudo sentido. Imperfeição atraente e voadora. Loucura afável que não vê o tempo passar. É sempre presente. A fúria torna-se meiguice. Completude. Sensações estranhas de uma palavra que inventamos, um sentir sem nome e sem data. Futuro incerto de presente vibrante. Presente infinito. Tempo que não morre e não mata.